Posts tagged ‘silêncio’

Manifesto 4’33”

É com pesar que escrevo este texto.

Aconteceu nesta noite, 25 de Abril de 2006. Fui ao concerto da OSRN (Orquestra Sinfônica do Rio Grande do Norte) esperançoso em ouvir Mozart e Beethoven, como já sabia o programa de antemão. Ao chegar, uma longa fila se estende na bilheteria. A quantidade de pessoas indo aos concertos da orquestra sinfônica aumentou bastante agora no começo da temporada 2006. É bom perceber um aumento na procura de boa música numa cidade como Natal, especialmente.

Entrei no teatro e o terceiro toque já tinha sido dado, a orquestra iria começar a tocar. Corro e tento subir rapidamente a longa escada que leva às galerias. Não há tanta gente assim. Bastante gente mas nada lotado. “É bom pois vai dar para escolher um bom lugar”, pensei.

Enganei-me redondamente. Escolhi o pior lugar possível! Ao começar o primeiro movimento do Divertimento em Ré maior de W.A.Mozart dá para se ouvir ruídos em todo os 360 graus que me circundam. É ruído para dar inveja a 5.1 Dolby Digital Sound. Porta, cadeiras arrastando, pessoas conversando e um solitário saco de bala, a competir com a orquestra nos decibéis.

“Ah, mas isso é só no começo, daqui a pouco para”, pensei e me enganei novamente. Desta vez uma enxurrada de pessoas começa a entrar pela porta e cada um munido de seu instrumento sonoro (musical, nunca) – sacos plásticos. Foi uma coisa do outro mundo. Imagine a cena: você quer ouvir a orquestra tocar Mozart mas na verdade ouve um Divertimento para Orquestra e Sacos Plásticos. Havia tantos sacos plásticos (preenchidos de chicletes, balinhas e chocolates de todos os tipos) que se poderia dividi-los em Primeiros e Segundos Sacos Plásticos, tal qual há a divisão entre os violinos de uma orquestra.

Além do (des)concerto dos sacos plásticos, havia também uma garota que não parou de conversar um segundo desde o início da apresentação…. Minto! Parou sim… mas sempre tornava a conversar na melhor hora possível: durante as cadenzas do Concerto para Oboé – KV 314 (Concerto para Oboé e Saco Plástico). Imagine novamente: a orquestra inteira pára de tocar para o momento de sublimação instrumental do solista e lá está ela de novo, a voz indesejada.

A crescente massificação da cultura leva a um desrespeito enorme às artes de maneira geral. Não sei o que esse tipo de pessoa – que conversa durante um concerto ou aproveita para fazer um lanchinho – pensa da arte mas para ela a arte deve ser tão descartável quanto uma música de dois minutos que toca na sua rádio preferida. Tão descartável quanto aquele chocolate que ela devorou ruidosamente sem refletir o significado daquele barulho.

Em uma sociedade cada vez mais adepta da imagem ante o conteúdo, essas pessoas devem ir a concertos apenas para incorporar sua pose de intelectual, às vezes os óculos de aro grosso já estão devidamente pendurados na cara (sem querer generalizar, só a fim de comicidade).

Talvez seja um fenômeno da falta de concentração generalizada a que todos nós estamos sujeitos ao nos condicionarmos a consumir sempre fatias microscópicas de informação. Cada quadro de um programa tem no máximo 5 minutos. Músicas no rádio, apenas 2. Além disso, o bombardeio, na internet, de micropartículas de informação que tanto são informativas quanto “confusivas”.

Nos acostumamos ao fast-food, não só a comida mas também na arte, mesmo que de entretenimento puro.

Imaginei muito durante a primeira parte do concerto o que é que John Cage faria no meu lugar. Talvez ele incorporasse uma das Grimaces de Erik Satie e assustasse as pessoas para fora da sala? Talvez não. Talvez uma de suas obras mais importantes pudesse fazer refletir sobre o silêncio, cada vez mais ausente do nosso meio. 4’33”, obra única em que o solista senta-se ao piano e nada toca durante quatro minutos e trinta e três segundos. Em uma de suas várias interpretações possíveis esta obra nos chama a atenção: NÃO EXISTE MÚSICA SEM SILÊNCIO.

Anúncios

26/04/2006 at 1:46 am 11 comentários


rápidas

Feeds