Archive for fevereiro, 2008

Sobre Títulos e Pensar por Si

Há uma verdadeira adoração aos títulos na nossa sociedade. Até em cumprimentos coloquiais podemos ver uns chamando os outros de “Mestre”, “Doutor”, “Capitão”…

E, em tempos de profunda crise e falta de empregos, está aberta a temporada de caça aos títulos. Corra já atrás do seu antes que acabe! Os estudantes agora não tendo mais onde trabalhar vão simplesmente ficando na universidade por falta de opção e acabam, naturalmente, conseguindo os tais títulos. Tornam-se Mestres e depois, naturalmente, Doutores até que finalmente saem do país! Mas que maravilha, “foi estudar na Zoropa”! É praticamente ascender aos céus. Ascender aos céus, mesmo. Literalmente! Porque quando voltam alguns se comportam como se fossem verdadeiros deuses.

A ostentação do título é normal e acredito que já tenha sido verificada amplamente por qualquer pessoa. Há doutores que fazem questão de serem chamados por Doutor. Não que haja algo errado nisso mas o tipo de reflexão que quero provocar é tal: e o que há realmente por trás de um título? Será que o título significa realmente tudo que normalmente é considerado?

Semana passada estive presente, quase por um acaso, em uma reunião de acadêmicos. Havia um evento cultural e compareci por interesse em assistir a apresentação. Fiquei surpreso com a incrível demonstração de “ostentação titular” que ocorreu. Uma apresentadora, antes do evento começar, explicou que aquele acontecimento era em comemoração a um outro evento da entidade e que iria apresentar a todos os membros de seu corpo. Ao fazê-lo, exigia que o referido membro se levantasse enquanto seu currículo era lido em voz alta. Os olhos de cada um dos ali presentes brilhavam! Mestrado não sei onde, Doutorado na casa da mãe-de-pantanha, Pós-Doutorado na casa-de-chapéu. Um homem do meu lado quase que chorava de emoção.

Após a apresentação de todos os membros deu-se início a apresentação que tanto esperava. Quinze minutos depois de ter iniciado eu já não conseguia ficar lá. Tinha que ir embora. Meu tempo estava sendo desperdiçado tamanha era a falta de qualidade. Comecei a ficar inquieto e o foco de atenção se desviou do palco à platéia. Qual foi minha surpresa! Os doutores, supostas pessoas de cultura, cujo conhecimento repousa intocável dentro de suas cabeças, estavam todos “embevecidos” com a apresentação. Não obstante o nível artístico fosse baixíssimo, nenhum dos ali presentes parecia se incomodar. Muito pelo contrário. As expressões marcadas em seus rostos eram de admiração e deslumbramento.

Como se confunde cultura com escolaridade, não?! Escolaridade não implica cultura. Ver todos aqueles doutores fazendo cara de admiração ao assistir a uma performance artística de tão baixo nível me fez ter mais certeza ainda desta tese. Foi uma pequena amostra.

O que significa ser Doutor? Significa possuir mais cultura ou conhecimento? Acredito que não. Só significa que alguém passou mais tempo dentro da sala de aula lendo o que os outros escreveram e escrevendo o que os outros querem que ela escreva. Não mais, não menos. Schopenhauer disse, em seu texto “Do pensar por si” (A Arte da Literatura, capítulo 5),

[…] muita leitura retira toda a elasticidade da mente; é como manter uma fonte continuamente sob pressão. Se um homem não quer pensar por si, o plano mais seguro é pegar um livro toda vez que não tiver nada para fazer. É esta prática que explica por que erudição torna a maior parte dos homens mais estúpidos e tolos do que são por natureza […]

Ora, não parece aqui que a maioria trabalha justamente desta forma no nosso ensino superior?

Schopenhauer vai além.

“O homem que pensa por si forma suas opiniões e apenas posteriormente aprende as autoridades sobre estas, quando servem somente para fortalecer sua crença nelas e em si. Mas o filósofo livresco parte das autoridades; lê os livros de outrem, coleta suas opiniões, e assim constitui um todo para si – de tal forma que se assemelha a um autômato, cuja composição não compreendemos. Contrariamente, aquele que pensa por si se empenha como um homem vivente feito pela Natureza. A mente pensante é alimentada pelo ambiente, a qual então forma e dá origem à sua criação.


(..) as aquisições intelectuais do homem que pensa por si são como uma pintura refinada cheia de vida – na qual a luz e a sombra estão corretas, o tom é contínuo e a cor perfeitamente harmonizada. Por outro lado, as aquisições intelectuais do mero homem do conhecimento são como uma grande paleta cheia de todos os tipos de cores que, no máximo, estão organizadas sistematicamente, mas sem harmonia, relação e significado.”

O que Schopenhauer diz parece se encaixar perfeitamente neste caso (o de portadores de títulos que não possuem cultura “à altura” – se é que isso existe – dos títulos que carregam). Seu conhecimento profundo acerca de um mesmo tema parece não se conectar a toda a teia de conhecimentos que a Humanidade já construiu. Parece algo artificial. São, na verdade, ultra-especialistas. Gosto de dizer que são “especialistas em girar porcas XT-R45-F/2 12 graus para a direita”. Se questionados para que girem para a esquerda não saberão fazê-lo.

O que venho dizer é que cultura não depende de título. Isso não significa que não haja doutores e mestres com extrema cultura e um conhecimento realmente natural, como o conceito de Schopenhauer. Mas, como em todas as camadas sociais e culturais, trata-se da extrema minoria. E esses, tenho certeza, não enchem o peito para que os chamem de ‘Doutor’.

Não nos deslumbremos somente porque alguém possui um título. O título só significa que o cidadão em questão é um homem do conhecimento. Não um homem que pensa por si, conhece a cultura de onde veio, suas raízes, outras culturas e, assim, faça conexões entre a multiplicidade de visões de mundo. Este último é raro e não depende da escolaridade. Há desde gente simples do povo, que mal sabe ler e até mesmo doutores (que resistiram à ‘des-elastilização’ da mente, citada por Schopenhauer) que possuem o poder de pensar por si e de conectar o que sabem verdadeiramente com tudo que os cerca. A capacidade de conectar o que se sabe é mais importante. Pensar por si. Pensem por si!

“Pensar por si é esforçar-se para desenvolver um todo coerente – um sistema, mesmo que não seja estritamente completo; nada atrapalha mais esse objetivo que fortalecer a corrente de pensamento de outrem, como acontece por meio da leitura contínua. Esses pensamentos, surgindo cada qual de mentes distintas, pertencentes a diferentes sistemas, trazendo diferentes cores, nunca confluem para um todo intelectual; nunca constituem uma unidade de conhecimento, insight ou convicção; pelo contrário, abarrotam a mente com uma confusão babilônica de línguas.” Schopenhauer, Do pensar por si.


“O que o homem herda só o pode chamar de seu quando o utiliza.” Goethe

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26/02/2008 at 10:07 pm 12 comentários

A Rough History of Disbelief

Mais um vídeo, dessa vez não utilizarei o embed pois há vários capítulos. Trata-se de uma série da BBC.
A Rough History of Disbelief

18/02/2008 at 7:21 am Deixe um comentário

O preço do ateísmo

18/02/2008 at 7:09 am 3 comentários

Por que ser cético é bom pra você?

Texto republicado. Quanto à discussão anterior. Aí vai a minha opinião sobre o assunto. Este texto foi publicado aqui neste blog há mais de 2 anos.

Como alguém pode explicar para os que acreditam em explicações fáceis que todo o universo se torna imediatamente mais fascinante se saímos da caverna de Platão e admitimos que não sabemos nada sobre de onde viemos e para onde vamos? Sair do calor e aconchego das respostas fáceis e tomarmos para nós mesmos a maior dor de viver: não saber a origem nem o fim dessa bola de ping-pong (fãs de tênis-de-mesa, desculpem-me) que explodiu. Eu hei de concordar que viver nas respostas fáceis é realmente bem mais fácil. Entretanto, toda filosofia de vida que se baseia em crenças da vida após a morte e deuses que dividem com estranha exatidão o certo e o errado gera uma espécie de vida ‘oca’. Tudo está destinado ao pós-morte. Como alguém consegue viver uma vida inteira dedicada ao desconhecido?

Ah, a Bíblia… aquele livro escrito pelos padres durante a Idade Média, que todos dizem ser a palavra de Deus. Ele garante tudo, não? Garante sim. Garante pelo menos UMA razão suficiente para negar todas as verdades pasteurizadas que aprendi durante minha infância e início da adolescência em colégio de freiras: cultura da culpa e do medo.

Todo o cristianismo se baseia no sentimento de culpa estratosférico dos ‘pecados’ somados ao medo abismal do inferno. Parece-me estranho que alguém queira viver uma vida inteira sentindo culpa diariamente, temendo eternamente as labaredas do inferno e, conseqüentemente, dedicando boa parte do seu já pouco tempo terreno a igrejas para uma absolvição de seus pecados e conseqüente limpeza de suas culpas e desejos. Tudo que há de humano é classificado como ‘errado’ e uma inversão de valores semelhante ao que Nietzsche aponta em ‘O Anticristo’ ocorre. Tudo que há de terreno e real no homem é substituído por valores inexistentes ou, pelo menos, incertos. Esquece-se do corpo em detrimento do ‘espírito’. O corpo não mais importa, apenas o espírito – esse que ninguém sabe se existe realmente. Toma-se o incerto pelo certo e jogam-se fora as únicas certezas que o homem teve desde a sua origem.

Eu me recuso a ver Deus como um cara tão cartesiano, tal como me foi ensinado no catecismo. Saí para comprar comida no supermercado e ao voltar passei por um senhor com uma corcunda. Imediatamente me lembrei do que algumas pessoas me diriam: “graças a Deus que a gente tem saúde”. Como se o fato de eu ter saúde e daquele senhor ter uma corcunda como fardo fosse uma escolha de Deus. Não considero este tipo de atitude a atitude de um Deus. Parece-me mais a atitude de um homem. “O homem criou Deus à sua imagem e semelhança” e não o contrário, como exposto na Bíblia.

Pintando um quadro de uma vida inteira de cristianismo fervoroso vejo apenas tons escuros. Uma vida inteira dedicada ao desconhecido. Como um jogador de pôquer que aposta todas as suas fichas nas cartas de alguém que nem se sabe se vai chegar a jogar na mesma mesa que ele.
Além da crença em outras dimensões há também a crença na pseudo-ciência. Tarot, búzios, dieta do tipo sangüíneo… a lista é imensa e cresce a cada dia. Um parece se apoiar e se fortalecer no outro.

E por que ser cético é melhor pra mim? Você pergunta.

Isso eu não posso responder, infelizmente. Propus-me a responder mas no decorrer do texto cheguei à compreensão de que isso simplesmente é impossível. O que posso dizer é porque ele é melhor para mim! O ceticismo pode gerar uma espécie de ‘solidão cósmica’ em alguns momentos, mas acredito que esse tipo de sensação aconteça com todas as pessoas que vivam e tenham inteligência suficiente para se questionar seriamente e com extrema sinceridade sobre as questões fundamentais da filosofia.

No entanto, viver de maneira cética te ajuda a erguer a cabeça e a viver pró-ativamente a vida. Esta vida é tudo que nós temos. Apesar de me considerar agnóstico e não ter certeza sobre a existência de Deus, vivo sem apostar minhas fichas nele. Faço valer cada pequena fração de segundo da minha vida, já que, por definição, não deposito minhas expectativas no além-vida. Enquanto nado, pedalo ou corro, me admiro com a beleza que há em cada pequeno momento da vida. As paisagens, o vento na cara, o calor, o suor, os pássaros, as árvores.
Em seu livro ‘O Mundo Assombrado pelos Demônios’, Carl Sagan exprime com exatidão o que quero dizer:

“Ele sabia dos tijolos moleculares da vida que existem lá fora, no gás frio e rarefeito entre as estelas? Tinha ouvido falar sobre as pegadas de nossos antepassados que foram encontradas em cinza vulcânica de 4 milhões de anos? E que dizer do Himalaia se erguendo quando a Índia se espatifou contra a Ásia? Ou da maneira pela qual os vírus, construídos como seringas hipodérmicas, introduzem furtivamente o seu DNA pelas defesas do organismo hospedeiro e subvertem o mecanismo reprodutivo das células?; ou da procura de inteligência extraterrestre pelo rádio?; ou da recém-descoberta antiga civilização de Ebla que alardeava as virtudes da cerveja Ebla? Não, ele não tinha ouvido falar. Como também não conhecia, nem mesmo vagamente, a indeterminação quântica, e reconhecia DNA apenas como três letras maiúsculas que freqüentemente aparecem juntas.”


Apesar de falar não exatamente sobre religião mas, sim, sobre pseudo-ciência, dá para ilustrar bem a maneira de pensar e de se maravilhar com o que temos ao nosso redor, em contraste com a incógnita que a religião e a pseudo-ciência nos oferecem.
Toda a filosofia de vida decorrente de um ponto de vista cético é, possivelmente, mais positiva e otimista do que a maioria imagina e leva a uma postura frente à vida de valores morais humanos e de uma crescente sensação de irmandade com tudo ao nosso redor, afinal, é tudo o que temos.

“Toda a nossa ciência, comparada com a realidade, é primitiva e infantil – e, no entanto, é a coisa mais preciosa que temos.” Albert Einstein (1879-1955)

P.S: Sei que a Bíblia não foi escrita durante a Idade Média. A citação no começo do segundo parágrafo é mera ironia. Para maiores informações sobre a origem da Bíblia eu recomendo o texto “Sobre a Bíblia Sagrada”, de Robert G. Ingersoll.

17/02/2008 at 10:25 pm Deixe um comentário

Dois vídeos interessantes

“Não é possível convencer um crente de coisa alguma, pois suas crenças não se baseiam em evidências; baseiam-se numa profunda necessidade de acreditar” — Carl Sagan

“Em toda e qualquer cultura, imaginamos o Universo governado por algo parecido com nosso próprio sistema político. Poucos acham a similaridade suspeita” — Carl Sagan

16/02/2008 at 11:34 pm Deixe um comentário


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