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Zubin Mehta regendo o Adagietto (Sinfonia 5-Mahler)

30/10/2007 at 2:34 am Deixe um comentário

Adagietto

Mahler foi um compositor austríaco que viveu de 1860 a 1911. Seu trabalho como compositor é conhecido principalmente pelas obras orquestrais (Sinfonias, poemas sinfônicos e Lieder para voz e orquestra). Uma obra em especial me rendeu uma boa dose de reflexão. Trata-se do Adagietto da Quinta Sinfonia, o quarto movimento, em Fá maior. As sinfonias de Mahler (nove, ao todo) possuem um caráter titânico. São gigantescas, verdadeiros monumentos erguidos em forma de som. Mahler soube como esculpir gigantescas criaturas no ar. Quando falo em monumento, gigantes ou titãs não falo apenas da extensão temporal (já que a suas sinfonias possuem longuíssima duração). Falo também da escala da orquestra, que precisa de muitos músicos mas falo também, e principalmente, do fato delas se figurarem quase que como entidades vivas. Schopenhauer considerava a música como a única arte que não simplesmente copiava idéias mas que carregava dentro de si mesma a Vontade. E foi isso que se tornou tão evidente para mim neste movimento de sinfonia de Mahler. Talvez o motivo seja o fato da arte sempre carregar dentro de si um retrato de sua época e de falar justamente o que o Homem de seu tempo Precisa saber. Talvez essa facilidade de compreensão ou de construção pessoal de uma conclusão que faça sentido sobre uma obra de arte seja mais fácil tanto quanto sejamos mais próximos da época em que fora composta.

Mas o que há de demais no Adagietto da quinta sinfonia de Mahler? Para mim, trata-se do apogeu de ternura e sensibilidade da obra. Do gigante. Deste sistema, deste universo encerrado em si mesmo. Expressão de Verdade e Harmonia. Como uma epifania, sussura-me o que não sabia que eu mesmo sabia. Mostra a mim mesmo a minha própria visão de mundo. Espelho para a essência do que sou.

É triste e alegre, leve e pesado, doce e amargo. Mahler serve, então, de ponte para nos levar a uma nova visão de mundo. Estamos todos (pelo menos a maioria de nós, brasileiros) impregnados da cultura judaico-cristã. Da noção já bastante velha de Claro e Escuro — que, inclusive, já fora assumida na arte no século XVIII. O Certo e o Errado. Vemos as duas coisas como constantes de um sistema físico fechado. Mas será que não é isso que gera boa parte do sofrimento do mundo atual? Lidar com o diferente. Julgar o Bem e o Mal alheio com o nosso ponto de vista por considerarmos simplesmente como sendo imutáveis e estanques.

Mahler me permitiu ver, com sua arte, o mundo de uma maneira menos cartesiana, mais humana e menos romantizada. Por romantizada não quero fazer alusão aqui ao período Romântico e sim à caricatura à qual fomos obrigados a aceitar como “visão romântica” e que consiste em uma visão de mundo materialista, voltada ao consumo e até machista, por que não? As comédias românticas estão aí como prova documental da artificialidade padronizada de vida a que estamos submetidos.

O que, em um final de tarde em meio ao trânsito caótico de Natal, Mahler me fez perceber foi que não há problema em encarar o desconhecido e a condição de ignorância e que devemos enfrentar a pressão da “felicidade constante” – como se todos nós tivéssemos que ser felizes na integridade do tempo. Com um simples movimento em tom maior que soa também menor conseguimos perceber com o nosso íntimo aquilo que todos sabemos com a razão. Devemos também perceber que no final das contas não há conceito de moral e ética que não tenha mudado com o passar do tempo e que não mude de acordo com o observador. Pouco se faz para que se mude essa mentalidade binária onde demarca-se com exatidão onde começam e terminam os nossos valores e é aí que entra a necessidade da arte para a Humanidade. A arte carrega em si um universo de possíveis interpretações. Cabe a cada um de nós espiar a fechadura. Cada qual enxergará uma coisa diferente. A verdadeira Arte é assim: Plural, como o mundo é e Pura como uma religião ideal.

30/10/2007 at 2:19 am 5 comentários


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