Archive for maio, 2007

Políticos Japoneses

Segunda-feira passada foi divulgada a notícia de que o ministro da agricultura do Japão havia se suicidado em seu apartamento um dia antes de ter que depor em uma espécie de CPI sobre a possível aceitação de suborno. Foi encontrado enforcado de pijamas em sua casa. Será uma espécie de harakiri?

Harakiri, ou, mais corretamente, Seppuku, é um ritual suicida cometido por samurais. O ato consistia em ajoelhar-se e enfiar uma Tanto (espécie de adaga, ou alforje curto) no lado esquerdo da barriga e cortar até o lado direito, deixando as víceras expostas a fim de mostrar sua pureza de caráter. Este ritual de suicídio era cometido por samurais que falharam a servir seu senhor ou perderam sua honra por motivos quaisquer.

O Seppuku faz parte do Bushido, código de conduta de samurais. O fato de cometer seppuku tinha o significado de bravura e o guerreiro podia terminar seus dias com seus erros esquecidos e sua reputação engrandecida.

O fato do político ter se suicidado parece fazer alusão a este ritual. As culturas orientais e ocidentais, apesar de todo o encurtamento de distâncias causado pelo fenômeno da globalização e internet, ainda são bastante distantes.

Qualquer pessoa que tenha praticado alguma arte marcial oriental, até mesmo o Judô, que já nem se parece mais com arte marcial e sim com um esporte, pode perceber o respeito e o cuidado com os protocolos presentes em sua cultura.

Até costumo pensar para mim mesmo que uma das razões para o Japão ter conseguido se reerguer depois de Hiroshima e Nagasaki deva ter sido a sua cultura extremamente responsável onde os atos são medidos também na esfera do coletivo e não apenas da maneira auto-centrada a qual estamos acostumados a pensar. Se esta tese faz sentido não cabe aqui discutir pois me falta matéria-prima de conhecimento até para expor uma tese dessa.

Mas o fato é que toda essa história de honra e suicídio pelo político japonês me voltou a memória para o contato que tive com a cultura japonesa: Akira Kurosawa, o Judô e o Aikido. Alguns protocolos simples presentes em artes marciais ensinam um pouco do respeito ao próximo e aos professores, por exemplo. É muito interessante vivenciar isto. Quebra alguns paradigmas da nossa cabeça ocidental.

E um dos caminhos para viver um pouco isso é o cinema de Akira Kurosawa. Para quem quer então vão três dicas de filmes do diretor japonês. Dois deles dirigidos por ele e um último filmado já após sua morte mas com roteiro de sua autoria. O terceiro é de direção de Takashi Koizumi.

Sonhos

Dividido em 8 capítulos, sonhos é um filme que geralmente muda a maneira com que as pessoas enxergam o cinema (pelo menos a mim mudou). A temática gira em torno da relação existente entre o homem e a natureza e como o homem tem destruído gradativamente o ambiente ao seu redor. Cada sonho possui cerca de 15 minutos de duração e foram inspirados em sonhos que Akira Kurosawa teve ele mesmo. Alguns dos sonhos são de uma beleza extrema e outros de uma feiúra inquietante, coisas que realmente incomodam. É arte em um de seus mais altos patamares.
Ran

Ran é um filme bastante cansativo mas ao mesmo tempo bastante interessante. O esforço de assisti-lo recompensa com uma grande obra de arte e muita “comida pro cérebro”. Vale ressaltar que é uma sessão de mais de 3 horas de filme então esteja preparado. O filme se passa no Japão feudal e é baseado na obra de Shakespeare King Lear. Os personagens foram transportados do ambiente inglês ao ambiente japonês. Este é um dos filmes que possuem um final que me intriga até hoje. Até hoje ainda não entendi este final muito bem, apenas possuo algumas interpretações vagas e vazias. Se alguém quiser me compartilhar sua visão deste final é só me escrever.

Depois da Chuva

Depois da chuva foi um roteiro que Akira deixou escrito mas não chegou a filmá-lo. Um de seus assistentes, Takashi Koizumi então o filmou. Dos três filmes é certamente o mais fácil de assistir. O filme conta a história de um ronin – um samurai sem senhor – e sua esposa que impossibilitados de continuar sua viagem por conta da cheia de um rio, ficam juntos com outrass pessoass presos em uma estalagem. É uma história singela que retrata uma mudança de era – a era dos samurais acabara e toda uma história de honra agora dá lugar à pobreza e decadência. Mas não é um filme triste. Apesar disso ele contem sim o seu lado humorístico. Além disso transborda de Beleza (com b maiúsculo) e mostra esperança apesar de todos os pesares. Afinal, a chuva há de passar.

30/05/2007 at 2:23 pm 3 comentários

Babel e a Vida Ordinária

O mito é aquilo que nunca aconteceu e no entanto vive acontecendo, não lembro do autor desta frase. A idéia das muitas línguas, da Torre de Babel, vive acontecendo e está estreitamente ligada à Vida Ordinária, assunto destes 2 textos abaixo.Nem sempre estamos conversando com o intuito de trocar idéias, diria que muitas vezes não estamos mesmo, lembrando de O Clube da Luta, quando Marla Singer(Helen Bonham Carter) diz a Jack( Ed Norton), (e os dois concordam!) por que frequenta(m) os grupos de apoio “-Quando as pessoas pensam que você está morrendo elas realmente ouvem você…ao inves de só esperar sua vez de falar”. Não é isso? Já observei muitas vezes que durante algumas conversas foram apenas exposições de verdades pessoais que não se misturaram, X falou a sua e Y a dele e não tente tirar o logarítmo pois o intuito não foi, desde o começo, deixar as bases iguais.

Acontece regularmente, num bate papo é fácil observar: não são construções nem trocas que ocorrem, são individuos expondo temas e variações de suas idéias de mundo, de suas verdades; na maior parte das vezes as idéias que este quer por pra fora são simultaneamente tanto para ouvir-se como para avaliar, veladamente averiguar se existe uma concordância geral sobre a SUA visão de mundo. Já o interlocutor, que fará o mesmo daqui a pouco, só está fazendo uma tradução simultânea da informação que chega com seguinte critério ” Concordo ou Não Concordo” como condição de continuar o papo, não está querendo absorver algo para confrontar com o que pensa, se ao fim da exposição do outro houver pelo menos 50% “concordo”, ok! chegou a vez dele falar, e ai recomeça tudo, agora com mudança de posições… e depois ainda diz “Fulano de tal…muito gente fina”. Claro! Concorda com tudo que você diz! E você idem! E de tudo que ele falou, um só pegou o que concordava no outro! Nesta semi-dialética ordinária não há a predominância de um item mágico, bonito, que é a busca da Verdade reconhecendo a existência do egotismo, o excesso de ego que via de regra leva ao erro, a gente normalmente não percebe quando o excesso de ego está nos desviando. Este excesso é o que não permite que o individuo descubra quem ele efetivamente é.

São muitos os entraves para um homem livre de si mesmo, precisa ler-se constantemente, sim, estudar-se com afinco, mais que qualquer outro livro, ontem um amigo disse ” Bicho, o melhor livro é o espelho”. Mas olha, sou muito entusiasta dos resultados desta leitura. A liberdade oriunda desta é desejosa e gera um prazer impensável nos primeiros capitulos. Normalmente começa com o gênero tragédia, ou então suspense, terror, pois a maioria destes “livros” são sobre as trevas no começo. Sempre, sempre ao fim do livro ( que inevitavelmente leva a outros livros), ou até mesmo ao fim de grandes e conclusivos capitulos há felicidade, no mínimo um sentimento de agradecimento pela elucidação de si mesmo. Entretanto, é impossivel avançar na leitura sem entender realmente o conteúdo, simplesmente não anda, o livro é trocado em atenção para qualquer comercial de tv.

O exercício de entendimento do conteúdo destes livros, quanto aos diálogos com outras pessoas ,assemelha-se à pratica da quebra da idéia da torre,… de Babel. É o desejoso estado de busca honesta e humilde de procurar entender cada informação que nos chega como um precioso pedaço que nos levará ao fim de mais um capítulo, nos levará à ampliação de nossa visão de mundo, afinal , se eu sou o referencial sempre que eu me descubro uma página a mais, o mundo cresce pra mim.Mas como disse, as informações que nos chegam dos outros, a priori, nem são processadas, precisa antes de mais nada entender que projetamos nós mesmos em tudo; é antes de tudo estudar e conhecer muito bem nossos projetores para só depois ver quais são as reais cores projetadas. Depois que conseguirmos enxergar direito, aí sim, poderemos ( e é perfeitamente possivel mesmo sendo minúsculos diante deste imenso Universo) fazer parte da Verdade, entendendo e manifestando-A.

Texto originalmente publicado por Renzo Torrecuso em http://maodupla.blogspot.com/

16/05/2007 at 12:18 pm Deixe um comentário

Vida Não-Ordinária

Este post se refere ao post anterior Vida Ordinária.

Existe uma idéia fortemente defendida por toda uma ideologia filosófica que toma a visão da existência a partir de um pessimismo arraigado na base. Tome, por exemplo, a filosofia de Nietzsche e Schopenhauer. Pessimistas, tudo que escreveram toma como argumentação básica a fragilidade do homem frente à existência.

Schopenhauer defendia que a existência é dolorosa pois a nossa Vontade nunca cessará de existir. Uma vez saciada uma Vontade, uma nova Vontade brota – uma cadeia infinita de Vontades. E essa Vontade se apresenta como ações voltadas ao impulso de preservar a própria existência.

Já para Nietzsche a Verdade é sempre subjetiva: “A moral não tem importância e os valores morais não têm qualquer validade, só são úteis ou inúteis consoante a situação”.

A existência, pelo menos em sociedade, é dor, pois sua Vontade está, desde que a primeira civilização surgiu, sendo cada vez mais extraída de cada homem. A Vontade, os impulsos, o que há de animalesco no homem: tudo isso é controlado para que se possa viver em sociedade. Então, como Freud explica, a vida em sociedade cobra um preço a ser pago. E este preço é o de deixar que o super-ego controle o id. Ou seja, a razão agora dominará os instintos básicos do homem.

Então vemos que o processo de civilização parte do princípio de diminuir o id ao mínimo possível a fim de permitir o convívio pacífico em sociedade e, por conseguinte, leva ao sofrimento pois culmina na falência do homem em ter seus instintos satisfeitos – a busca pelo prazer.

Desta maneira, o homem possui seus vetores de Vontades que nunca cessarão de existir e um super-ego que não o deixa saciar o que há de animalesco em si. Está exposto o problema.

A sociedade ao longo de sua história sempre cuidou de gerar métodos de esquecimento de suas inquietações. Segundo Schopenhauer, a arte é um dos paliativos. Ao contemplarmos a música, por exemplo, temos a Vontade encerrada em si pois a música é a única arte que existe independente do mundo externo. É absoluta. Encerra-se em si mesma. Portanto, contemplar a Música é uma experiência de diminuição da dor a partir do momento em que a vemos encerrada em si mesma e auto-suficiente.

Além da arte, a religião também cumpre seu papel. Ao alimentar os seus crentes com um sistema que explica a gênese do todo e o porvir do ser humano, serve como calmante existencial. Mas não entremos neste mérito.

Além disso há outros meios de escape da análise fria da realidade, mas não vêm ao caso.

Mas e quanto ao título? Uma vida não-ordinária se baseia em quê? Na busca pela Verdade? Mas será que como seres limitados que somos e tão pequeno ante tudo podemos chegar à Verdade? E se isso for impossível? E se querermos alcançar a Verdade for demais? Não seria uma espécie de fé? Acredito que o mundo seja mais parecido com um espectro de verdades do que como uma verdade só absoluta. Talvez a única Verdade absoluta seja alguma espécie de regra que governa o universo mas nós não conhecemos nada do universo, praticamente. Temos também suporte Nietzschiano sobre a não-existência de uma Verdade única, como citado acima.

Outro fato que contesto do artigo anterior é a idéia implícita de que quanto mais conhecimento mais tristeza. À medida que se avança em conhecimento mais percebemos nossa pequenez mas esta análise é parcial pois à medida que avançamos em conhecimento somos abençoados com uma maior habilidade em perceber e nos encantarmos com a Beleza.

Beleza como conceito estético, que podemos verificar nas artes em abundância e que, como dito por Nietzsche “permite que a Verdade não nos destrua”. É a ela que devemos buscar a fim de vivermos vidas não-ordinárias.

E acredito que vivo uma vida feliz ao constatar diariamente a Beleza de coisas pequenas e corriqueiras como o vento no rosto até a Beleza existente em uma Sinfonia de Beethoven.

Se eu acho que um dia chegarei à Verdade? Não sei. Enquanto isso eu busco a Beleza e sigo em minha bicicleta sentindo o cheiro da maresia nas estradas da vida.

O belo é tão útil quanto o útil. Talvez até mais. (Victor Hugo)

13/05/2007 at 11:46 pm Deixe um comentário

Vida Ordinária

“Observe como são felizes as moscas sobre o esterco”.

Em maior ou menor escala, para não dizer em todas as escalas, essa frase está cada vez mais em voga.

Pertence a um de tantos mestres Zen Budistas que existem e ja existiram. Claro que o oriente dos samurais, de Confúcio, Sidarta e Lao Tse hoje está invadido pelo pensamento torpe do nosso semi bárbaro Ocidente insanamente ultra materialista, mas esses grandes seres citados deixaram verdades, e para aqueles que conseguem reconhecer, o barulho das moscas e odor de esterco está obvio. Como é ordinaria essa vida semi feliz. Vamos lá.

O que empolga?
O que nos eleva?
O que justifica estar vivo?
Quantas vezes durante o dia isso é realmente o norte das ações e, principalmente, das reações dos individuos?

Uma vez respondido isso, o que é feito com essa informação que é um pequeno pedaço de verdade? Pois, afinal, é o melhor de cada um. Responder isso é se posicionar pelo menos diante de você mesmo (estou variando entre as pessoas a quem dirijo este texto propositadamente), posicionar-se diante daquilo que pra cada um simplesmente É. Como diria o escrito na parede de Beethoven: ” eu Sou aquele que É. (…)”.

O Sétimo Selo, Senhor dos Anéis, Náufrago, o Ultimo Samurai, Clube da Luta , Star Wars…Assistiu? E aí? O que sobrou?
Sinfonias, Concertos e Sonatas de Beethoven, U2, Variações Goldberg ou tantas outras de Bach, Chico, Vinícius… Alguma coisa?
Poemas de Drumond, pensamentos de Lao Tse, livros e mais livros que nos fazem querer compartilhar ideias maravilhosas… Tá começando a pegar a idéia?
E as viagens? que mostram como o mundo é realmente belo e imenso.

Agora que vem o caráter ordinário: O que você efetivamente FAZ com isso? Ou você acredita que não tem responsabilidade sobre o grau de Verdade que consegue reconhecer? Tudo aquilo que nos regozija é um pagamento à vista pelo privilegio de reconhecer mais um micro quinhão da Verdade. Sim. Existe a Verdade para homens de boa vontade.

Não existe? Puxa…

É a cada segundo. A Verdade paira à nossa frente, é a nossa visão limítrofe que nos impede de entender mais. Não precisa ser formalizada numa reunião, num culto (claro que não me refiro àquilo que chamam por esse termo) ou num tratado pronunciado em rede nacional; não, tudo aquilo que nos faz sentirmos humanos, que nos faz expandir, como que não cabendo nesse metro cúbico que ocupamos, tudo isso é Verdade e um dos preços que se paga por ela é: se você não a colocar em prática ela é esquecida e acontece algo lindo e natural- A auto alienação. Como que numa tentativa de proteger-me de ter que reconhecer que não sou capaz de aplicar uma Verdade, mudar minha conduta, quebrar comodismos, ou seja agir de acordo com aquilo que penso, eu fujo de olhar pra dentro e ter que reconhecer isso tudo. Como? Procurando a “felicidaaaade”! Ora, como é feliz essa vida! Temos bares, festas, milhares de “brinquedinhos tecnologicos” pra comprar, infindáveis conversas despreocupadas e idiotas, muitos amiiiigos, sim, todos amigos…que felicidade.

Essa vida eternamente semi feliz.

Texto originalmente publicado por Renzo Torrecuso em http://maodupla.blogspot.com/

13/05/2007 at 10:12 pm 6 comentários


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