Archive for novembro, 2006

Carnatal é Natal?

O Carnatal está se aproximando e mais uma vez a cidade vai voltar os olhos para o Corredor da Folia e esquecer todo o resto, como é de praxe. Os assaltantes de casas, carros e de estabelecimentos comerciais já devem estar se aquecendo enquanto escrevo este artigo. “Incrível criticar o Carnatal, não?! Uma festa que traz dinheiro para a cidade!”, alguns podem questionar. Mas não é bem a realidade.

Na verdade, o Carnatal é um desserviço à nossa cidade e, mais ainda, à nossa cultura. Um desserviço à nossa cidade por muitas razões. Transtorna a vida de todos em detrimento de uma pequena parcela, causando problemas de trânsito, segurança, barulho na área do entorno. Para quem mora perto, ou se hospeda em um hotel ou simplesmente só dorme depois que a folia acabar. Para quem mora em uma casa, há de suportar o cheiro de mijo durante algumas semanas até. Comerciantes são obrigados a reforçar a segurança por medo de saques. A lista é imensa! Você pode até tentar argumentar com relação aos vendedores ambulantes. Mas antes se lembre de que eles não pagam impostos (exceto os credenciados, mas esses também fazem parte de uma minoria). E também se pergunte se você considera um vendedor ambulante um símbolo do sucesso da política de empregos de qualquer lugar que seja. É um desserviço à nossa cultura no tocante que o que é veiculado não é, sobremaneira, parte de nossa cultura. Não possui nossos traços. Não veio de nossas raízes. É importação de produtos de baixa qualidade a sobrepreço! O imperialismo baiano posto em prática e desfilando abaixo das nossas ventas. É fácil observar que o Carnatal é um grande teatro montado para uma minoria em que o dinheiro público é utilizado massivamente para que alguns poucos da iniciativa privada encham os cofres de dinheiro. Basta ver como a cidade muda toda para se moldar ao evento, e não o contrário, como aconteceria em qualquer lugar civilizado.

É fácil também observar o simbolismo da corda. Ela não é apenas, como parece a olhos inocentes, um aparato de segurança. É, muito mais, uma alegoria de poder. Segrega entre os que podem estar cercados dela e os que não podem. Gerando, então, um vácuo de desejo naqueles de menor poder aquisitivo e, como reação à ação, gera também naqueles que estão do lado de dentro da corda a sensação mais almejada: a compensação da suspenção temporária de sua moral-hipocrisia via o pagamento de uma taxa.

Quanto mais alto o preço, maior a libertação que cada um pode ter de sua moral hipócrita. Durante algum pouco tempo podem fazer tudo aquilo que não têm coragem de fazer durante o ano todo. É como um grito insano de alguém proibido de falar durante todos aqueles 365 dias anteriores ao evento, “agora eu vou me liberar”. O Carnatal é um palco onde seres sem poder crítico e discernimento se alinham como limalha de ferro sob um ímã às ordens de um asno que rebola freneticamente em cima de um caminhão montado de caixas de som. Como um rebanho de ovelhas, partem de um lugar a lugar algum. Vão, sem objetivo, induzidos pelo sentimento de massa de “beijar porque todo mundo beija, pular porque todo mundo pula”, como li no Jornal de Hoje (esqueço o nome do autor no momento, vou buscar).

É a necessidade de se moldar e de estar “conforme” que alimenta o Carnatal. E enquanto a grande maioria da população continuar desejando estar do lado de dentro da corda para poder pertencer à pequena minoria e, então, se alinhar ao ímã do consumismo, então não há possibilidade de crença em progresso em termos de consciência cultural e capital humano. Há, tão somente, a constatação de que a mediocridade reina.

Gabriel Galvão, Natal, 29 de novembro de 2006, a um dia do Carnatal.

30/11/2006 at 1:09 pm 8 comentários

José Saramago, Ensaio sobre a Cegueira

“(…) Se antes de cada acto nosso nos puséssemos a prever todas as consequências dele, a pensar nelas a sério, primeiro as imediatas, depois as prováveis, depois as possíveis, depois as imagináveis, não chegaríamos sequer a mover-nos de onde o primeiro pensamento nos tivesse feito parar. Os bons e os maus resultados dos nossos ditos e obras vão-se distribuindo, supõe-se que de uma forma bastante uniforme e equilibrada, por todos os dias do futuro, incluindo aqueles, infindáveis, em que já cá não estaremos para poder comprová-lo, para congratular-nos ou pedir perdão, aliás, há quem diga que isso é que é a imortalidade de que tanto se fala.”


José Saramago, Ensaio sobre a Cegueira. Ed. Companhia das Letras, p. 84

13/11/2006 at 4:05 pm 2 comentários


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