Archive for maio, 2006

Saudades…

Nunca podemos recuperar totalmente o que foi esquecido. E talvez seja bom assim. O choque do resgate do passado seria tão destrutivo que, no exato momento, forçosamente deixaríamos de compreender nossa saudade. Mas é por isso que a compreendemos, e tanto melhor, quanto mais profundamente jaz em nós o esquecido”.

(Walter Benjamin)

Citação originalmente postada por João Carlos Rocha em http://maodupla.blogspot.com/

05/05/2006 at 8:52 pm 10 comentários

Ser ou não ser?

Eu havia pensado em outro tema para começar a minha participação no Mão Dupla. Porém, quando eu estava indo hoje a noite dar aulas, escutei uma discussão entre jornalistas que logo me interessou pelo tom dos debatedores.
O tema era a nacionalização das reservas naturais bolivianas pelo presidente Evo Morales, ocorrida no último dia primeiro, que prejudicou seriamente as atividades da Petrobrás naquele país. Como sabemos, a estatal brasileira é dona das duas maiores refinarias de petróleo, além de ter acesso às seis maiores reservas de gás natural da Bolívia. Cerca de 75% do gás lá extraído é diretamente enviado por um gasoduto, abastecendo o centro-sul do Brasil.

O debate corria solto, discutindo a riqueza da Petrobrás naquela região – que alcançava patamares de 18% do PIB boliviano – quando um dos debatedores soltou a seguinte frase: “se o governo brasileiro tivesse coragem, já havia tomado uma decisão mais drástica frente a Bolívia”. Interrompido pelos outros, ele parou por aí.
Mas, para mim, ficou um questionamento no ar: “que decisões drásticas deveriam tomar o governo brasileiro? Corte de relações diplomáticas? Destruição das estruturas construídas? Ou, mais forte ainda, uma invasão militar?”. Enquanto eu pensava, o programa já havia acabado e as primeiras notas de O Guarani invadiam os alto-falantes.
E, na minha reflexão, eu viajava pela História. Já no Reinado de Dom Pedro I, poucos anos depois da independência, o Brasil se envolveu em questões internacionais. Tentou, por anos, consolidar-se como potência regional, dominando regiões – como o Uruguai – e interferindo em eleições – apoiando determinados partidos na Argentina, Paraguai e no próprio Uruguai. Lembremos da Guerra do Paraguai, aquele famigerado conflito ocorrido no governo de Dom Pedro II quando a Tríplice Aliança derrotou o governo de Solano López. O Brasil, desde aquele momento demonstrava uma tendência imperialista frente aos seus vizinhos.
Na Primeira República, Brasil e Bolívia se confrontaram pela região do Acre. Este estado brasileiro foi incorporado por meio do Tratado de Petrópolis (1903), quando o ciclo da borracha estava em alta e aquela região era repleta de seringueiras. Assim, o Brasil garantiu seus interesses econômicos atacando a soberania do território boliviano. Portanto, não é de hoje que nosso país se mete em assuntos alheios.
O Brasil vive, neste momento, uma espécie de dilema Shakespeareano. Ao mesmo tempo em que é uma nação que lidera o bloco dos países em desenvolvimento, questionando, por exemplo, decisões da Organização Mundial de Comércio, é também o país mais rico da América do Sul, dominando economias e reservas naturais de seus vizinhos – é o império da região. Somos os Estados Unidos da América do Sul – imigrantes bolivianos tentam a sorte na indústria da moda paulista da mesma forma que imigrantes mexicanos se arriscam na terra do Tio Sam. Vivemos um verdadeiro “ser ou não ser” a potência latino-americana que domina seus vizinhos.
Assim, vejo as reações do governo brasileiro e me perguntou se poderiam ser mais eficazes. Em minha opinião, não devemos tomar decisões precipitadas: a melhor forma de resolvermos querelas é através do diálogo, da diplomacia. Certamente a guerra não seria a melhor forma de impor nossas vontades a qualquer governo, como, de forma egocêntrica, imaginaram os norte-americanos. No quesito democracia em assuntos externos, estamos na frente.
Mas, acima de tudo fico triste com a frase de um conceituado jornalista potiguar. Alguém que se utiliza da liberdade de expressão para falar o que quiser sobre qualquer pessoa exigir que o nosso fraco governo tome decisões drásticas frente à Bolívia é, sem dúvida, pouco democrático.
É… Parece-me que Diogo Mainardi anda fazendo escola…

Texto originalmente postado por João Carlos Rocha em http://maodupla.blogspot.com/

03/05/2006 at 4:27 am 9 comentários


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