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Por que ser cético é bom pra você?

Como alguém pode explicar para os que acreditam em explicações fáceis que todo o universo se torna imediatamente mais fascinante se saímos da caverna de Platão e admitimos que não sabemos nada sobre de onde viemos e para onde vamos? Sair do calor e aconchego das respostas fáceis e tomarmos para nós mesmos a maior dor de viver: não saber a origem nem o fim dessa bola de ping-pong (fãs de tênis-de-mesa, desculpem-me) que explodiu. Eu hei de concordar que viver nas respostas fáceis é realmente bem mais fácil. Entretanto, toda filosofia de vida que se baseia em crenças da vida após a morte e deuses que dividem com estranha exatidão o certo e o errado gera uma espécie de vida ‘oca’. Tudo está destinado ao pós-morte. Como alguém consegue viver uma vida inteira dedicada ao desconhecido?
Ah, a Bíblia… aquele livro escrito pelos padres durante a Idade Média, que todos dizem ser a palavra de Deus. Ele garante tudo, não? Garante sim. Garante pelo menos UMA razão suficiente para negar todas as verdades pasteurizadas que aprendi durante minha infância e início da adolescência em colégio de freiras: cultura da culpa e do medo.
Todo o cristianismo se baseia no sentimento de culpa estratosférico dos ‘pecados’ somados ao medo abismal do inferno. Parece-me estranho que alguém queira viver uma vida inteira sentindo culpa diariamente, temendo eternamente as labaredas do inferno e, conseqüentemente, dedicando boa parte do seu já pouco tempo terreno a igrejas para uma absolvição de seus pecados e conseqüente limpeza de suas culpas e desejos. Tudo que há de humano é classificado como ‘errado’ e uma inversão de valores semelhante ao que Nietzsche aponta em ‘O Anticristo’ ocorre. Tudo que há de terreno e real no homem é substituído por valores inexistentes ou, pelo menos, incertos. Esquece-se do corpo em detrimento do ‘espírito’. O corpo não mais importa, apenas o espírito – esse que ninguém sabe se existe realmente. Toma-se o incerto pelo certo e jogam-se fora as únicas certezas que o homem teve desde a sua origem.
Eu me recuso a ver Deus como um cara tão cartesiano, tal como me foi ensinado no catecismo. Saí para comprar comida no supermercado e ao voltar passei por um senhor com uma corcunda. Imediatamente me lembrei do que algumas pessoas me diriam: “graças a Deus que a gente tem saúde”. Como se o fato de eu ter saúde e daquele senhor ter uma corcunda como fardo fosse uma escolha de Deus. Não considero este tipo de atitude a atitude de um Deus. Parece-me mais a atitude de um homem. “O homem criou Deus à sua imagem e semelhança” e não o contrário, como exposto na Bíblia.
Pintando um quadro de uma vida inteira de cristianismo fervoroso vejo apenas tons escuros. Uma vida inteira dedicada ao desconhecido. Como um jogador de pôquer que aposta todas as suas fichas nas cartas de alguém que nem se sabe se vai chegar a jogar na mesma mesa que ele.
Além da crença em outras dimensões há também a crença na pseudo-ciência. Tarot, búzios, dieta do tipo sangüíneo… a lista é imensa e cresce a cada dia. Um parece se apoiar e se fortalecer no outro.
E por que ser cético é melhor pra mim? Você pergunta.
Isso eu não posso responder, infelizmente. Propus-me a responder mas no decorrer do texto cheguei à compreensão de que isso simplesmente é impossível. O que posso dizer é porque ele é melhor para mim! O ceticismo pode gerar uma espécie de ‘solidão cósmica’ em alguns momentos, mas acredito que esse tipo de sensação aconteça com todas as pessoas que vivam e tenham inteligência suficiente para se questionar seriamente e com extrema sinceridade sobre as questões fundamentais da filosofia.
No entanto, viver de maneira cética te ajuda a erguer a cabeça e a viver pró-ativamente a vida. Esta vida é tudo que nós temos. Apesar de me considerar agnóstico e não ter certeza sobre a existência de Deus, vivo sem apostar minhas fichas nele. Faço valer cada pequena fração de segundo da minha vida, já que, por definição, não deposito minhas expectativas no além-vida. Enquanto nado, pedalo ou corro, me admiro com a beleza que há em cada pequeno momento da vida. As paisagens, o vento na cara, o calor, o suor, os pássaros, as árvores.
Em seu livro ‘O Mundo Assombrado pelos Demônios’, Carl Sagan exprime com exatidão o que quero dizer:
“Ele sabia dos tijolos moleculares da vida que existem lá fora, no gás frio e rarefeito entre as estelas? Tinha ouvido falar sobre as pegadas de nossos antepassados que foram encontradas em cinza vulcânica de 4 milhões de anos? E que dizer do Himalaia se erguendo quando a Índia se espatifou contra a Ásia? Ou da maneira pela qual os vírus, construídos como seringas hipodérmicas, introduzem furtivamente o seu DNA pelas defesas do organismo hospedeiro e subvertem o mecanismo reprodutivo das células?; ou da procura de inteligência extraterrestre pelo rádio?; ou da recém-descoberta antiga civilização de Ebla que alardeava as virtudes da cerveja Ebla? Não, ele não tinha ouvido falar. Como também não conhecia, nem mesmo vagamente, a indeterminação quântica, e reconhecia DNA apenas como três letras maiúsculas que freqüentemente aparecem juntas.”
Apesar de falar não exatamente sobre religião mas, sim, sobre pseudo-ciência, dá para ilustrar bem a maneira de pensar e de se maravilhar com o que temos ao nosso redor, em contraste com a incógnita que a religião e a pseudo-ciência nos oferecem.
Toda a filosofia de vida decorrente de um ponto de vista cético é, possivelmente, mais positiva e otimista do que a maioria imagina e leva a uma postura frente à vida de valores morais humanos e de uma crescente sensação de irmandade com tudo ao nosso redor, afinal, é tudo o que temos.
“Toda a nossa ciência, comparada com a realidade, é primitiva e infantil – e, no entanto, é a coisa mais preciosa que temos.” Albert Einstein (1879-1955)

P.S: Sei que a Bíblia não foi escrita durante a Idade Média. A citação no começo do segundo parágrafo é mera ironia. Para maiores informações sobre a origem da Bíblia eu recomendo o texto Sobre a Bíblia Sagrada, de Robert G. Ingersoll.
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29/01/2006 at 7:49 pm 16 comentários


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