Archive for outubro, 2005

Ciclos II

Às vezes me perguntam qual é a graça de me mandar Rota do Sol adentro, pedalando contra aquele vento fortíssimo. Qual é a graça?

Há toda aquela explicação que passa pela superação pessoal, esporte, saúde, desafio, vício (viciados em endorfina). Mas talvez não seja tão simples assim. Lance Armstrong diz em seu livro — que foi escrito após ter vencido duas vezes consecutivas a competição do Tour de France — que talvez ele estivesse sempre fugindo. Fugindo pois naquelas horas em que o corpo testa seus próprios limites quase não há tempo para se dedicar a uma reflexão sobre a sua vida, por exemplo. As velhas questões que atormentam a humanidade desde que o homem tomou consciência da sua “inteligência”.

E isso me lembra um pouco também o filme 2001, Uma odisséia no espaço. Onde somos questionados se não somos só uns macaquinhos inteligentes que aprenderam a usar ferramentas. Será que somos? Acredito que a sempre crescente sensação de solidão “cósmica” nos faz imaginar pelo menos um pouco radical essa comparação (apesar de genial no contexto do filme, que, aliás, é inteiramente genial). Quanto mais o tempo passa mais tomamos conhecimento dos ciclos, como no primeiro texto. Mas também nos tornamos mais céticos ao enfrentarmos a realidade e pormos à prova todas as quase-respostas que nos são dadas às perguntas fundamentais.

Mas espere aí. Eu ainda não respondi porque gosto de sofrer, pedalar contra o vento, subir uma ladeira gigantesca e sentir o corpo ofegante e as pernas cheias de ácido lático. Talvez tenha um pouco da componente levantada por Lance Armstrong: a da fuga. Mas creio que não é o eixo principal.

Podemos imaginar uma bicicleta como uma estrutura que carrega dois ciclos. Um biciclo? Sim, dois ciclos que são movimentados pelas pernas do infeliz que gosta de sofrer que está em cima. Talvez seja uma questão da sensação de controle que sentimos ao escalarmos uma ladeira íngreme e longa. Chegamos ao final e pensamos: “É, cheguei aqui por mérito meu. Controlei meus ciclos e os fiz girar por minha vontade.”.

Seria como uma falta de necessidade de outras explicações metafísicas para um fato tão corriqueiro. E que prazer ter ao menos um momento do dia onde não somos oprimidos pelas questões existenciais.

24/10/2005 at 3:26 pm 7 comentários

Sim, não ou talvez? De que lado fica a terceira margem do rio?

Talvez esse referendo não dê em nada. Talvez sirva para alguma coisa. Quem sabe? Talvez a maioria das pessoas nem saiba se o sim é a favor ou contra. Talvez ninguém saiba se o não é contra um não; ou contra um sim… Talvez todo mundo esteja votando por pura obrigação. Talvez todo mundo esteja votando com a certeza de que vai contribuir para diminuir a violência. Talvez alguém esteja votando sim porque viu Chico Buarque na tv falando que devia ser assim. Talvez alguém vote não por medo de perder seus direitos… Talvez todos tenham direito à morte, assim como têm direito à vida.

Talvez alguém justifique seu voto hoje, por preguiça de ir votar. Talvez alguém vote bêbado… Será? Talvez alguém vote, mesmo que não seja obrigado. Talvez ninguém saiba direito o que é uma arma de fogo. Talvez alguém queira mesmo é ver o circo pegar fogo…. Será que ninguém mais lembra dos escândalos políticos? Talvez. Talvez queiram esquecer. Talvez todo mundo saiba a quantidade de dinheiro que está sendo gasta com esta votação. Talvez nem liguem para isso. Talvez alguém vote nulo. Talvez alguém vote branco. Paz. Talvez alguém vote no 3. Talvez. Talvez alguém já tenha votado… Talvez alguém ainda não. Talvez alguém ainda esteja se decidindo. Talvez alguém nunca tenha duvidado. Talvez alguém tenha se convencido ou tenha sido forçado a se convencer. Talvez alguém tenha sido convocado para trabalhar na eleição! Coitado.

Talvez alguém esteja sem opção, pois nem é sim nem é não. Talvez toda questão tenha mais que 2 lados. Talvez não ficar a favor nem contra não seja ficar em cima do muro. Talvez ter opinião seja uma coisa muito complexa e nem um pouco maniqueísta. Talvez a gente esteja achando que vai resolver um problema muito difícil de uma maneira muito simples. Talvez isso seja impossível. Mas talvez seja bom tentar.

Talvez o proibido seja mesmo mais gostoso. E aí como é que fica o sim?
Talvez a liberdade precise ser mais controlada. E aí como é que fica o não?
Talvez o mundo fosse muito melhor se não houvesse “talvez”. Mas talvez as pessoas continuem se matando com ou sem armas de fogo, independente de leis, referendos, amor, razão, dinheiro, justiça, Deus ou Diabo. Talvez tudo isso contribua para o equilíbrio da vida. Ou desequilíbrio. Ou talvez esta seja uma visão infantil demais… Ou radical demais. Mas não deixa de ser uma possibilidade.

“A razão é a luz; a dúvida é a treva, congeminação de contrastes engendrados pela mesma causa. Felizes os irracionais, porque não duvidam.”
Domingos Olympio

*** título alternativo para este post: Talvez eu seja neurótica! HAHAHAHA

Texto originalmente publicado por Nanda PiG em http://maodupla.blogspot.com/

23/10/2005 at 6:17 pm 4 comentários

SIM ou NÃO

Às vezes você lê um texto e pensa: “eu queria ter escrito isso”. Foi o que me aconteceu quando li este texto de Pablo Capistrano, daqui da nossa terra. Ei-lo:

SIM ou NÃO

Pablo Capistrano
Escritor, professor de filosofia (www.pablocapistrano.com.br)

Leia com atenção as questões abaixo e responda com um sim ou com um não.
Você já matou alguém? Você já apontou uma arma de fogo para o tórax de um outro ser humano? Se você tivesse uma arma e munição à vontade teria tempo de treinar 300 disparos por semana e ter uma experiência de 3 mil repetições do ato de sacar e atirar? Você é feliz? Você se sente seguro em saber que o seu vizinho da esquerda tem uma arma de fogo em casa? Você acha que o ser humano é um animal social? Você já leu Thomas Hobbes? Você acredita que vai viver muito? Você já perdeu alguém que você amava de verdade? Você conhecia alguém que foi vítima de um latrocínio? Você sabe o que é um latrocínio?
Você acredita em Deus? Você acredita no “cidadão de bem”? Você conseguiria reconhecer um cidadão de bem quando vê um andando na rua? Você conseguiria reconhecer um bandido quando vê um andando na rua? Você lê poesia? Você sabe a diferença entre um planeta e uma estrela quando olha para o céu durante a noite? Você tem algum parente que foi alvejado por uma arma de fogo e morreu? Você tem algum amigo que ficou aleijado depois de receber um tiro? Você tem medo do futuro? Quando a noite cai, você costuma a dormir bem?
Você já se sentiu sinistro? Você controla as suas próprias pulsões? Você já teve vontade de matar alguém? Você sabe se o seu vizinho da direita já teve vontade de matar alguém? Você tem medo de um policial armado quando vê um andando na rua? Você assiste a novela das sete? Você já viu um cadáver? Você já foi ao circo? Você já passou a noite inteira acordado diante do seu computador jogando DOOM II? Você vai ao parque no sábado a tarde? Você gosta do mar? Você já ficou bêbado alguma vez? Você já pensou em ir morar fora do Brasil? Você já morou em Londres? Você acha que a Inglaterra vive sob um regime político totalitário? Você sabe quem escreveu isso: “O Direito é o conjunto das condições sob as quais o arbítrio de um pode ser reunido com o arbítrio do outro segundo uma lei universal da liberdade”? Você entendeu o que está escrito nessa citação que você acabou de ler? Você sabe o que é auto tutela? Você sabe o que é direito de resistência? Você consegue reconhecer um Estado social de barbárie e guerra perpétua quando vê um? Você consegue reconhecer um Estado de direito quando vê um? Você já acordou no meio da noite com vontade de chorar?
Você é rico? Você é saudável? Você passa mais de 2/4 do seu dia trabalhando? Você passa mais de 2/4 de seu dia com medo do amanhã? Você confia no futuro do seu país? Você confia no bom senso do seu vizinho? Você já mentiu para ganhar dinheiro? Você já ouviu o Quinteto para piano em Lá Maior, op 114, de Schubert? Você já atravessou o oceano de barco? Você já viu o céu do alto de uma montanha de 3800 metros? Você sabe quem escreveu isso: “Se um certo uso da liberdade mesma é um obstáculo à liberdade segundo leis universais (ou seja, é injusto), então a coerção que lhe é oposta como impedimento ao obstáculo da liberdade, está de acordo com a liberdade segundo leis universais, ou seja, é justa”? Você entendeu a citação que acabou de ler? Você sabe a diferença entre uma arma de fogo e um detergente sanitário? Você se sente seguro em saber que na sala de seu filho estuda uma criança cujo pai tem uma arma de fogo em casa? Você sabe a diferença entre um Ford Fiesta e uma arma de fogo? Você consegue reconhecer um discurso fascista quando ouve um na TV? Você ainda tem esperança? Você se considera uma pessoa justa? Você sabe o que é a justiça?
Você sabe quem escreveu isso: “carrega teu carro e teu arado sobre os ossos dos mortos”? Você entendeu a citação que você acabou de ler?

23/10/2005 at 3:12 am 4 comentários

Ciclos

Quando criança, um dia você se dá conta que vive e que os dias passam, um após o outro. E é sempre do mesmo jeito: acordar, dormir, acordar, dormir…

– Vá já pra a cama, menino! Já está muito tarde.
– Ahhhhh…

Não lembro ao certo quando foi o meu primeiro aniversário em que eu tive realmente a consciência do que era um aniversário. Mas suponho que a partir daí tenha se instalado no meu cérebro um dispositivo marcador de anos. Inicialmente, o dispositivo só servia para marcar uma data em que eu ganhava presentes (ainda lembro da BMX Monark azul). Além da data de aniversário, todas as outras datas comemorativas começaram a se programar dentro da criança: carnaval, páscoa, natal, fim de ano e feriados de todos os tipos.

Todo ano era sempre a mesma coisa.

Sopros de “civilização” entram na nossa cabeça aos poucos. Tudo parece girar, retornar à posição inicial e voltar a girar, em um movimento eterno e perfeitamente harmônico.

Quando já na escola, certo dia alguém nos explica que a água tem três formas e que elas mudam de uma para a outra. Esse é o ciclo da água! Mais um na nossa vida.

Relógios de pulso, ciclo de krebs!!!

– Muito chato estudar isso…

Translação e Rotação, Moda…

…Vida e morte.

Engraçado como tudo que nós imaginarmos iremos conseguir classificar como pertencente a um dos vários ciclos da vida. Ao envelhecer tomamos noção da morte e a partir daí mais ainda da vida. E para onde nós iremos? E por que estamos aqui mesmo? Quem foi que ajustou a posição inicial do Grande Relógio e de repente, em um tédio gigantesco, deu um peteleco em seu ponteiro maior e BANG! ou melhor: BIG BANG! ou ainda: Adão e Eva?

Olhando pra trás posso ver que algumas voltas já se completaram em vários dos meus relógios e não há como fugir disso.

No meu caso especial, acho que a idéia de ciclo toma um aspecto meio cômico-bizarro: tudo funciona em ciclos. Até o gosto musical (razão pela qual tomei a ação de vir aqui constatar a ciclicidade de tudo que me circunda, ao retornar à música erudita — que havia ‘abandonado’)!

P.S.: Eu não sou louco!

17/10/2005 at 3:31 am 11 comentários

Desarmamento, por João Ubaldo Ribeiro

Como é, já resolveu seu voto no plebiscito?— Já, já. Demorou, cara, foi uma discussão braba lá em casa. Muita opinião divergente, sobre se o SIM queria dizer que a gente não queria a proibição ou o contrário, você não imagina a discussão. Acabamos chegando à conclusão de que é o NÃO mesmo. Todo mundo lá vai de NÃO.

— Como é que é? Vocês tão achando que o NÃO vai proibir a venda de armas e munição?

— Não, não. Nós achamos que o NÃO quer dizer que a gente é contra a proibição. E é. Pode votar NÃO também tranqüilo, que é o voto certo.

— Qual é essa de voto certo, cara? Eu sou a favor da proibição, precisamos desarmar as pessoas.

— É, precisamos, precisamos. Vamos começar pelos assaltantes e traficantes, OK? Tu telefona pra polícia e diz pra eles “olha aqui, tive uma idéia-mãe, cês sobem lá nos morros e pegam as armas todas, não fica bandido nenhum armado!” Aí eles batem na testa e dizem “por que é que a gente não teve essa idéia antes, mas é claro, é só ir lá e pegar as armas, obrigadíssimo pela sugestão, ninguém aqui tinha pensado nisso!”

— Pode fazer ironia, mas o desarmamento é um grande passo adiante.

— É verdade. Um grande passo para os esquemas que já estão aí montados, para contrabandear e vender armas e daqui a pouco tu vai poder comprar tua Uzi num camelô da Rua Uruguaiana, onde tu já compra CD pirata.

— Não se pode pensar assim, dessa maneira negativa. O desarmamento é a primeira medida importante e, se você disser que a gente tem que dar prosseguimento, exigindo contrapartida das autoridades, aí eu concordo.

— Eu tou ficando surdo. Tu disse o quê? Que nós vamos exigir das autoridades? Tu já viu algum brasileiro exigir nada de autoridade nenhuma? Brasileiro toma é esporro de autoridade, foi criado nisso e é por isso que faz qualquer negócio para ser autoridade também, nem que seja flanelinha.

— Se a sociedade civil se organizar, o desarmamento põe o Brasil muito adiante. Nossa legislação passará a ser…

— Nossa legislação! Nossa legislação! Eu não agüento mais essa conversa de que nossa legislação é a melhor do mundo, não sei o quê. Pra mim é a mesma coisa que o Jô Soares fazendo a foto do “depois” de uma clínica de emagrecimento.

— Discordo frontalmente. Vamos fazer a nossa parte e exigir do governo que faça a dele.

— Que faça qual dele? Faça como nos hospitais? Nas estradas? Nas universidades? Nas instituições para menores?

— É porque ninguém jamais exigiu realmente, hoje o cidadão é mais cioso de seus direitos.

— Eu sei. É esse governo, esse governo é uma beleza. Não pense que eu não noto os importantíssimos alcances sociais dessa proibição. Por exemplo, grande parte dos excluídos será reduzida.

— Isso mesmo, a longo prazo é isso mesmo.

— Não, eu falo a curto prazo, a curtíssimo prazo. Tu já imaginou o alívio que isso vai ser para o pequeno e o microassaltante? Porque eu já senti que a tua é como a do governo ajudando o pequeno empresário, tu quer ajudar o pequeno assaltante, tu realmente é um grande humanista. Eles devem arrumar um nome aí, “Assalto Participativo” ou “Programa Primeira Bolacha na Cara do Otário”, uma coisas dessas. Tu tá certo, vai ajudar a diminuir a exclusão.

— Tu tá ironizando novamente.

— Só posso estar, cara! Assim que tiver certeza de que nenhum cidadão tem arma em casa, o assaltante que não tem condições de investir em sua primeira arma, que vai estar caríssima, só precisa pegar uns dois comparsas fortes, preferivelmente treinados em artes marciais, e entrar na casa de qualquer pessoa. Quem resistir eles cobrem de porrada. Não vou negar que é uma forma de inclusão, não deixa esses assaltantes sem chance de trabalho. O dono da casa, velho ou fraco e sem dispor do Grande Equalizador…

— O Grande Equalizador?

— Eu me esqueço de que tu não tem cultura literária. O Grande Equalizador era o nome que um escritor americano de que eu gosto muito dava ao revólver. E tem coisa mais certa? Você se esqueceu de que a arma também é a defesa do mais fraco? Com ela na mão, fica mais difícil ser assaltado na base do cachação.

— Cara, tô surpreendido com você, surpreendidíssimo mesmo. Até agora não consigo acreditar que você tenha mudado tão radicalmente, você até ontem pensava o oposto.

— É, mas pensei mais um pouco e descobri que o Brasil é um país muito mais original do que a gente pensa. Você veja agora: meus princípios não mudaram, mas eu vou votar contra os meus princípios para preservar meus princípios. Já basta um tráfico mandando no Rio, que é o das drogas. Com o das armas, já fica demais, a gente nem vai saber a quem obedecer. Nem a polícia vai saber mais a quem obedecer, será o caos. Vá por mim, cara, vote certo, vote na realidade. Vou consultar um ex-padre que eu conheço sobre como é que se diz isso em latim, uma coisa mais ou menos assim: “Investigatio, habemus pizzam. Prohibitio, habemus mutretam.” Claro que está errado, mas ele corrige e por enquanto eu te cedo um slogan: “Para votar SIM, vote NÃO.” Ah, Deus meu, ái lóvi Brêizil.

JOÃO UBALDO RIBEIRO é escritor.

14/10/2005 at 5:39 am 2 comentários

Deus segundo Laerte

Tira originalmente publicada por Nanda PiG em http://maodupla.blogspot.com/

05/10/2005 at 1:09 am 2 comentários


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