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Adagietto
Mas o que há de demais no Adagietto da quinta sinfonia de Mahler? Para mim, trata-se do apogeu de ternura e sensibilidade da obra. Do gigante. Deste sistema, deste universo encerrado em si mesmo. Expressão de Verdade e Harmonia. Como uma epifania, sussura-me o que não sabia que eu mesmo sabia. Mostra a mim mesmo a minha própria visão de mundo. Espelho para a essência do que sou.
É triste e alegre, leve e pesado, doce e amargo. Mahler serve, então, de ponte para nos levar a uma nova visão de mundo. Estamos todos (pelo menos a maioria de nós, brasileiros) impregnados da cultura judaico-cristã. Da noção já bastante velha de Claro e Escuro — que, inclusive, já fora assumida na arte no século XVIII. O Certo e o Errado. Vemos as duas coisas como constantes de um sistema físico fechado. Mas será que não é isso que gera boa parte do sofrimento do mundo atual? Lidar com o diferente. Julgar o Bem e o Mal alheio com o nosso ponto de vista por considerarmos simplesmente como sendo imutáveis e estanques.
Mahler me permitiu ver, com sua arte, o mundo de uma maneira menos cartesiana, mais humana e menos romantizada. Por romantizada não quero fazer alusão aqui ao período Romântico e sim à caricatura à qual fomos obrigados a aceitar como “visão romântica” e que consiste em uma visão de mundo materialista, voltada ao consumo e até machista, por que não? As comédias românticas estão aí como prova documental da artificialidade padronizada de vida a que estamos submetidos.
O que, em um final de tarde em meio ao trânsito caótico de Natal, Mahler me fez perceber foi que não há problema em encarar o desconhecido e a condição de ignorância e que devemos enfrentar a pressão da “felicidade constante” – como se todos nós tivéssemos que ser felizes na integridade do tempo. Com um simples movimento em tom maior que soa também menor conseguimos perceber com o nosso íntimo aquilo que todos sabemos com a razão. Devemos também perceber que no final das contas não há conceito de moral e ética que não tenha mudado com o passar do tempo e que não mude de acordo com o observador. Pouco se faz para que se mude essa mentalidade binária onde demarca-se com exatidão onde começam e terminam os nossos valores e é aí que entra a necessidade da arte para a Humanidade. A arte carrega em si um universo de possíveis interpretações. Cabe a cada um de nós espiar a fechadura. Cada qual enxergará uma coisa diferente. A verdadeira Arte é assim: Plural, como o mundo é e Pura como uma religião ideal.
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