Posts filed under ‘pseudoliterários’

A você, de mim

A você, inomeável, escrevo uma carta sem remetente. Uma carta sem pretensão, sem planejar. Um lembrar no meio da tarde, quando tanto trabalho inunda nossas mentes. Uma carta com a intenção simples de transmitir meu sentimento – sentimento velado, íntimo e tantas vezes não pronunciado. Queria dizer que tantas coisas aprendi com você… Aprendi a ser calmo e a me enraivecer. A melhor calar e a melhor falar. Aprendi a não me exceder e a esparramar minh’alma quando a hora pedir.

Aprendemos. Não depender, o mais importante. Como ser cada um e ser dois, e sermos múltiplos. E ainda partícula infinitesimal, que de tão juntas e parecidas se fundem em momentos onde não há razão. Momentos em que queremos profeticamente que o mundo seja por um instante harmônico como um simples átomo, como numa utopia narcísea. Quando queremos que o mundo seja como nós… e ainda assim não depender.

Aprendi, aprendo e quero continuar a aprender. As lições que não aprendemos por nós mesmos, aprendamo-nas juntos. Esta carta tão sem razão de ser e ao mesmo tempo cheia de vontade própria, escrevo p’ra você que tantas vezes fui eu e que tantas outras fui você.

Eu.

05/06/2008 at 12:29 am 2 comentários

A Opressão do Tempo

Na maioria das vezes só se é possível analisar algo quando nos distanciamos o suficiente para não nos misturarmos ao elemento observado. Não ver o que queremos ver mas somente enxergar a realidade.

Ao passarmos algum tempo longe de qualquer centro urbano como quando viajamos ao interior ou a uma praia muitas vezes nem percebemos alguns detalhes pois estamos muito ocupados descansando de toda a opressão a que estamos submetidos na vida urbana.

Ao me afastar mesmo que durante pouco tempo da cidade cheguei a uma conclusão que pode ou não parecer óbvia a todos: a diferença mais fundamental que há entre os estilos-de-vida urbanos e rurais ou “de praia” não se dá no fator Natureza ou no fator Paz de Espírito (devido à ausência de ruídos de carros) ou ainda nas picuinhas advindas da ‘falta do que fazer’.

Acredito que a maior diferença é a indiferença no trato com o Tempo. Tempo com T maiúsculo. Que, desde o nosso nascimento, vamos aprendendo a temer e a respeitar. A temer pois estamos desde cedo submetidos a ele de inúmeras maneiras. Hora para dormir, hora para acordar, acordar cedo para a aula (…). Dormir e acordar e ir sendo lentamente esculpido pelo Tempo. Esticado e talhado como se Cronos talhasse em nós lindos traços, nos transformando em adultos, e, depois, enjoado de brincar com os bonecos mais velhos, talhasse alguns traços mais profundos como que uma criança que quebra um brinquedo velho que não lhe serve mais e, assim, nos levasse ao fim inevitável.

Quando passamos uma pequena temporada que seja longe da nossa casa em uma área rural, por exemplo, um relógio se torna uma coisa altamente descartável a ponto de sequer olharmos para ele. Por isso que descansamos tanto quando fugimos da cidade. Parecemos estar distantes do talhar Cronológico – não há hora para cumprir. Não há trânsito para enfrentar com hora para chegar. Não temos que ir dormir cedo nem tarde.

Engraçado que, quando crianças, queremos sempre ficar adultos com uma pressa incrível. Não é irônico?

23/01/2007 at 2:02 am 6 comentários

Manifesto 4’33″

É com pesar que escrevo este texto.

Aconteceu nesta noite, 25 de Abril de 2006. Fui ao concerto da OSRN (Orquestra Sinfônica do Rio Grande do Norte) esperançoso em ouvir Mozart e Beethoven, como já sabia o programa de antemão. Ao chegar, uma longa fila se estende na bilheteria. A quantidade de pessoas indo aos concertos da orquestra sinfônica aumentou bastante agora no começo da temporada 2006. É bom perceber um aumento na procura de boa música numa cidade como Natal, especialmente.

Entrei no teatro e o terceiro toque já tinha sido dado, a orquestra iria começar a tocar. Corro e tento subir rapidamente a longa escada que leva às galerias. Não há tanta gente assim. Bastante gente mas nada lotado. “É bom pois vai dar para escolher um bom lugar”, pensei.

Enganei-me redondamente. Escolhi o pior lugar possível! Ao começar o primeiro movimento do Divertimento em Ré maior de W.A.Mozart dá para se ouvir ruídos em todo os 360 graus que me circundam. É ruído para dar inveja a 5.1 Dolby Digital Sound. Porta, cadeiras arrastando, pessoas conversando e um solitário saco de bala, a competir com a orquestra nos decibéis.

“Ah, mas isso é só no começo, daqui a pouco para”, pensei e me enganei novamente. Desta vez uma enxurrada de pessoas começa a entrar pela porta e cada um munido de seu instrumento sonoro (musical, nunca) – sacos plásticos. Foi uma coisa do outro mundo. Imagine a cena: você quer ouvir a orquestra tocar Mozart mas na verdade ouve um Divertimento para Orquestra e Sacos Plásticos. Havia tantos sacos plásticos (preenchidos de chicletes, balinhas e chocolates de todos os tipos) que se poderia dividi-los em Primeiros e Segundos Sacos Plásticos, tal qual há a divisão entre os violinos de uma orquestra.

Além do (des)concerto dos sacos plásticos, havia também uma garota que não parou de conversar um segundo desde o início da apresentação…. Minto! Parou sim… mas sempre tornava a conversar na melhor hora possível: durante as cadenzas do Concerto para Oboé – KV 314 (Concerto para Oboé e Saco Plástico). Imagine novamente: a orquestra inteira pára de tocar para o momento de sublimação instrumental do solista e lá está ela de novo, a voz indesejada.

A crescente massificação da cultura leva a um desrespeito enorme às artes de maneira geral. Não sei o que esse tipo de pessoa – que conversa durante um concerto ou aproveita para fazer um lanchinho – pensa da arte mas para ela a arte deve ser tão descartável quanto uma música de dois minutos que toca na sua rádio preferida. Tão descartável quanto aquele chocolate que ela devorou ruidosamente sem refletir o significado daquele barulho.

Em uma sociedade cada vez mais adepta da imagem ante o conteúdo, essas pessoas devem ir a concertos apenas para incorporar sua pose de intelectual, às vezes os óculos de aro grosso já estão devidamente pendurados na cara (sem querer generalizar, só a fim de comicidade).

Talvez seja um fenômeno da falta de concentração generalizada a que todos nós estamos sujeitos ao nos condicionarmos a consumir sempre fatias microscópicas de informação. Cada quadro de um programa tem no máximo 5 minutos. Músicas no rádio, apenas 2. Além disso, o bombardeio, na internet, de micropartículas de informação que tanto são informativas quanto “confusivas”.

Nos acostumamos ao fast-food, não só a comida mas também na arte, mesmo que de entretenimento puro.

Imaginei muito durante a primeira parte do concerto o que é que John Cage faria no meu lugar. Talvez ele incorporasse uma das Grimaces de Erik Satie e assustasse as pessoas para fora da sala? Talvez não. Talvez uma de suas obras mais importantes pudesse fazer refletir sobre o silêncio, cada vez mais ausente do nosso meio. 4’33″, obra única em que o solista senta-se ao piano e nada toca durante quatro minutos e trinta e três segundos. Em uma de suas várias interpretações possíveis esta obra nos chama a atenção: NÃO EXISTE MÚSICA SEM SILÊNCIO.

26/04/2006 at 1:46 am 11 comentários

Mens Agit Molem

- Estude. Estude para ser alguém na vida. É… o vestibular. Estude para passar no vestibular. Estude. Estude para ser alguém na vida. Se forme e deixe de ser futuro do Brasil para se tornar um problema social. Arrume um emprego. Trabalhe. Ganhe seu dinheiro. Compre suas coisas. Tenha sucesso. Consuma ícones que a sociedade elege como sinais de sucesso. Seja feliz. Não… não vamos tão rápido…. Feliz ainda não…

Antes de tudo não seja solitário. Não dá para ser feliz sendo solitário. Ninguém é feliz solitário. Você não conhece aquela música dos Beatles? Qual é mesmo o nome? É… Eleanor Rigby (picks up the rice in the church where a wedding has been). É uma música bonita, não é? É sim… Ouvir os Beatles me deixa feliz. É, mas eu sei que a música é triste. Os solitários são tristes. Você tem que se casar e ter uma família. Aí sim você vai poder ser feliz. Só que aí você não vai ter mais tempo de gastar sua felicidade. Você está muito ocupado criando os seus filhos e arrumando dinheiro. Controle os gastos. Controle o peso. (Você ficou muito gordo depois que casou. Passa o dia vendo televisão). Controle a pressão. Controle o que o seu filho anda vendo por aí na internet. Controle o que ele vê na TV também. Controle o que há em sua volta. Talvez assim você não sofra e seja feliz. Ser feliz não é estar imune ao sofrimento? Mas o que causa o sofrimento? Não controlar todas as variáveis do seu universo? Que medo que eu tenho de casar e ter filhos…

Quanto mais alto maior a queda será. Verdade universal amplamente comprovada empírica e cientificamente pela física. Quanto mais tomamos as rédeas da nossa vida será que é maior o choque ao descobrirmos que não vivemos em um experimento controlado e não temos como controlar todas as variáveis?

Isso funciona como analogia?

Sim, acho que estou no caminho do sucesso. É… eu pareço ter capacidade intelectual suficiente para conseguir o que quero. Mas e daí?, se eu não consigo secar este meu poço de frustrações? Cada dia levanto um balde d’água com a razão e dois outros são despejados cheios de tudo que foge ao meu controle cartesiano.

É… é melhor repensar essa frase de Virgílio.

12/03/2006 at 6:38 am 11 comentários


rápidas

Feeds


Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.