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Valsa com Bashir
Valsa com Bashir, filme de 2008 sobre a Guerra Civil Libanesa de 1982, é, encurtando a descrição, um filme sobre o sofrimento psicológico causado pela guerra e a estupidez humana.
Em animação, o filme acompanha a vida de um cineasta, que, após conversa com um velho amigo, começa uma busca interior por suas memórias da guerra, inexistentes. Ao longo de sua busca, ele viaja para o encontro de velhos amigos que serviram juntamente a ele no exército. Os diálogos e relatos de cada uma das pessoas com quem ele se encontra são duros e em todos eles podemos perceber uma marca comum: as cicatrizes deixadas pela guerra, o que me fez chegar à conclusão de que o filme se passa muito mais em um nível psicanalítico do que em qualquer outro nível.
É impossível assistir a Valsa com Bashir e não querer compará-lo com pelo menos outros dois filmes: Apocalipse Now (Coppola) e Nascido Para Matar (Kubrick). Não, Valsa com Bashir não apresenta fortes semelhanças com nenhum desses dois filmes. A linguagem e o nível de granularidade dos acontecimentos é muito menor em ‘Valsa’. O palco para a encenação de ‘Valsa’ é a cabeça de um homem perplexo por não haver bloqueado todas as suas memórias da guerra. Embora Nascido Para Matar e Apocalipse Now flertem com um dos caminhos de ‘Valsa’ – o da estupidez humana de que se trata a guerra, esteticamente, como já falei, eles funcionam em níveis bastante distintos.
No fim do dia, Valsa com Bashir foi o filme que mais efetivamente me pareceu representar a ideia anti-guerra e o moto-perpétuo da máquina de intolerância humana frente ao diferente em um nível universal, enquanto que Apocalipse Now e Nascido Para Matar ficam presos a um contexto específico (Vietnã). Trata-se de um filme duro e que força a reflexão. Uma ótima escolha, se você está disposto.
Mônica Salmaso em Natal no projeto Nação Potiguar
Não sei bem se é o método padrão de entrada no palco subir entrando-se pelo meio da plateia mas foi assim que Mônica Salmaso, Teco Cardoso e Nelson Ayres subiram ao palco da edição comemorativa dos 8 anos de existência do projeto – demonstrando simplicidade. Ao abrirem a apresentação com Melodia Sentimental, do nosso grande Villa, Salmaso, Cardoso e Ayres arrebataram o público, que, em absoluto silêncio, como há muito tempo não presenciava – e até me arrisco a dizer que talvez nunca tenha visto, em verdade -, absorvia a densa massa de conteúdo sonoro. Salmaso, ela própria, comentou acerca do fato da plateia da noite ter entrado num clima tão forte de troca de energia com os músicos.
Da riqueza dos timbres, o cuidado nos arranjos, a sensibilidade e aparente simplicidade da execução e da cumplicidade demonstrada pelo trio, podemos concluir seguramente que o espetáculo que ocorreu hoje está dentre aqueles que mais honram a música popular brasileira. O trio, que está em nova turnê após a turnê anterior “Noites de Gala, Samba na Rua”, turnê essa que contava com uma formação maior (o grupo Pau Brasil, que é formado adicionando-se três outros membros: Rodolfo Stroeter – baixo, Paulo Belinatti – violão, e Ricardo Mosca – bateria), como Mônica Salmaso explicou ao público, iniciou com a ideia de ser uma versão reduzida do “Noites” mas no decorrer dos ensaios veio a ser algo diferente. Do repertório original do “Noites”, apenas “Construção” e “Ciranda da Bailarina”, ambas de Chico, permaneceram. Todo o resto foi preenchido por novos arranjos de outro repertório. Dentre eles, um duo de sopro e piano, cujo título da obra não me recordo, mas de autoria de Nelson Ayres, e uma performance solo de Salmaso, que cantou “Véspera de Natal”, de Adoniran Barbosa – um dos pontos altos. Não faz muito sentido se falar em destaque em um espetáculo desta magnitude, visto que tudo está em um nível tão alto que soa até bobo colocar obras de arte para competirem entre si. Entretanto, muito provavelmente por ignorância deste que escreve, não pude deixar de me espantar positivamente com a belíssima composição de Nelson Ayres, “Noite”, cuja melodia Salmaso relatou ter ficado em sua cabeça durante semanas quando de ouvi-la pela primeira vez.
Acredito que estive diante de uma das performances mais belas que verei em minha vida. Não se confunda aqui com grandiosidade, grandiloquência ou qualquer outra noção mais cara à magnitude da coisa. O que vi hoje foi algo que transcende em muito a mera magnitude técnico-musical. Vi algo que estampa beleza em todos os níveis. O grau de consciência desses artistas é imenso e, a julgar pela que nos foi demonstrado, descer até o nível de detalhamento que eles desceram (ou subiram, melhor!) é mais do que uma escolha artístico-performática mas, acima de tudo, um ato de respeito à Música e à Cultura Brasileira. O canto de Mônica Salmaso, os sopros de Teco Cardoso e o percutir de notas do piano de Nelson Ayres estão carregados de zelo e beleza. O trabalho do trio merece a maior divulgação possível.
Bastardos Inglórios
Confesso que fui assistir Bastardos Inglórios com uma grande dose de desconfiança por um lado e de excitação por outro. A violência, às vezes com uma não-tão-estranha gratuidade, sempre me afastou da estética Tarantiniana. Se há uma coisa que valorizo acima de tudo na arte é a congruência de seus elementos. Explico: acredito que o todo congruente de uma obra se dá a partir do momento em que as partes se relacionam, entre si, de forma necessária. Se um elemento sequer for removido, a obra perde o sentido. Em Bastados Inglórios, senti, pela primeira vez, como nunca em Tarantino, não apenas a força da violência, mas sua necessidade, ao se relacionar com o resto da obra. Não há violência gratuita. A violência é uma espécie de elemental invocado a partir do sofrimento humano causado pelos nazistas.
Ela vai sendo dissipada durante todo o filme e a sensação que me tomou foi mudando. Logo em um primeiro momento, quando dos primeiros minutos do filme – os primeiros minutos do primeiro ‘capítulo’ (sim, o filme é dividido em capítulos), o nível de tensão é ajustado em um nível bastante alto. Se fosse comparar com um ruído, seria suficiente para estourar os tímpanos de qualquer cidadão. Nesta primeira cena, um camponês avista uma viatura da SS e ordena que sua família entre em casa. Um oficial alemão, Hans Landa (Christoph Waltz), busca judeus que possam estar se refugiando na França e vai até a residência de Perrier LaPadite. A longa conversa, a lentidão das palavras do oficial alemão, a formalidade. Tarantino demora, sabiamente, até nos mostrar que realmente aquele homem refugiava judeus. Tomadas no rosto do Monsieur LaPadite e do oficial Landa evidenciam um contraste: o sofrer e a ansiedade de um homem de carne e osso versus a calma e o sadismo de um psicopata. O diálogo quase-silencioso entre LaPadite e o oficial Landa é genial. A tensão aumenta ainda mais, pouco a pouco, com o desenrolar da cena. LaPadite, para proteger sua família, é levado a entregar os refugiados e o velho “estilo Tarantino” é reconhecido quando os soldados que acompanhavam o oficial atiram um número desmedido de balas através do chão, onde a família judia estava escondida. Os tiros contrastam com o quase silêncio do diálogo anterior. A força da cena e a veracidade demonstrada pela atuação de Waltz fazem com que toda a violência vista a partir dali seja desejada pelo público.
A ferramenta que o diretor usa para nos levar a verdadeiras ‘sensações orgásticas de vingança’ é o pelotão dos ‘Inglourious Basterds’, liderado pelo Tenente Aldo Raine (Brad Pitt). O grupo executa toda sorte de crueldades contra os nazistas. Eles são a mão que Tarantino usa para, acima de tudo, e isto considero fato essencial para a compreensão completa do filme, fazer o público questionar sua própria moral. Para mim, foi impossível não me remeter à cena final de Dogville (onde nos questionamos porque nos sentimos tão bem com tamanha chacina), embora não seja tão explícito. Mas, de maneira semelhante, somos levados a nos questionar quanto a nossos valores: este ato de matar e torturar é repreensível e desumano, e mesmo assim sentimos um prazer imenso ao ver a brutalidade. Estamos sendo vingados. Somos levados um pouco mais próximo do Humano, mesmo que seja vergonhoso. Nietzsche questionou “quanto de verdade você pode suportar?”. Tarantino aperta em um botão dentro de nós. E é este o eixo. Ao reescrever a História, Tarantino pinta um quadro violento onde ao mesmo tempo sentimos prazer e nos questionamos quanto à ética desta fruição. Não posso falar mais pra não tornar isso num grande spoiler.
Boris Berezovsky, virtuose
Há alguns meses, esbarrei em vídeos dos Estudos de Execução Transcedental de Liszt. O pianista chamava a atenção pela clareza, precisão e agilidade com que tocava. Tratava-se de Bóris Berezovsky. O vídeo que vi faz parte de um DVD onde ele toca o ciclo dos Estudos, ininterruptos, ao vivo. Berezovsky sua em bicas e não é para menos, visto o esforço necessário para a execução do que se considerar o que há de mais difícil tecnicamente em termos de execução pianística. Não haja relação direta entre dificuldade e qualidade. Claro que não. Mas há algo de escopofílico em assistir a um virtuose executando obras dificílimas. O vídeo, na ocasião, foi o de número 8, Wilde Stagd,
e a marcação de andamento na partitura diz Presto furioso e pode ter certeza de que é isso que Berezovsky entrega aos ouvintes.
Há inúmeras outras gravações de Berezovsky dignas de nota. Suas gravações dos estudos de Chopin juntamente com os arranjos Godowsky estão também disponíveis no youtube, para a nossa felicidade. Ver o arranjo de Godowsky do Estudo Revolucionário (Opus 10, número 12) é de assombrar qualquer um:
Destaco primeiramente Estudos por serem de caráter mais técnico e permitirem a rápida observação do virtuosismo de Berezovsky, mas isso não significa que não haja lirismo como contraponto de uma técnica monstruosa. Pelo contrário. Há um arranjo do próprio pianista para a famosa peça orquestral de Modest Mussorgsky (Uma noite no Monte Calvário) que é simplesmente assombrosa. A tarefa de reduzir do excesso de recursos que uma orquestra possui para as limitações timbrísticas e físicas (afinal, são apenas 10 dedos e há um limite de distância entre eles, obviamente) de um piano é das mais difíceis e o resultado que ele consegue é, incrível.
Por final deixo a gravação mais lírica que encontrei no youtube. Berezovsky toca o Rach 2 (aqui apenas o segundo movimento, mas há tudo por lá, busquem!).
Mágica?
Tudo começa pelo nome. O nome já é suficiente para incomodar – “O Teatro Mágico”. Quem ouve o nome assim ao ar não imagina do que se trata. Acredito que na primeira vez que ouvi imaginei que era uma peça de teatro ou algo do gênero. Ao ver em frente aos meus olhos, de verdade, nos primeiros segundos, achava que era uma cópia mal feita do Cirque du Soleil. Ao continuar ouvindo percebi que era uma suposta ‘MPB’ (no pior dos sentidos que essas três letras em sigla tenham a capacidade de reduzir e cercear a amplitude da grande música de um país continental como o nosso), na esteira, do que nos últimos anos temos visto de falta de inovação, repetição de linguagem e falta de criatividade.
Outra coisa é a maquiagem. Sim, maquiagem e circense. Maquiagem que está, a meu ver, em um sentido mais amplo. Maquiam, na verdade, uma musiqueta de baixíssimo nível com trajes de “maman, je veux être avant-garde” que traga um grande números de pessoas que tomam seu consumo (sim, consumo) de arte como uma faceta de sua propaganda pessoal, seu networking – o que nos leva ao próximo ponto.
O slogan. Gastei alguns minutos em uma comunidade do Orkut lendo alguns tópicos em uma comunidade de fãs até que constatei que vários membros tinham aplicado maquiagens circenses – especialmente para colocarem em suas fotos dos perfis do Orkut, imagino. Na maioria das fotos havia um logotipo d’O Teatro Mágico. Um pouco como o branding feito no gado a fim de estampar a marca do dono, não? O slogan que a maioria das pessoas utiliza é o de “Só para Raros“. Neste ponto tenho que reconhecer a grandeza de marketing de quem quer que esteja por trás do grupo. É clássico no mundo ocidental que as pessoas se sintam bem e superiores às outras se aceitas em um grupo.
Ainda mais se o grupo se considera superior por algum motivo ou critério qualquer. Só para Raros… Genial, mesmo. É similar ao efeito que as pessoas que pertencem a grupos religiosos procuram. A sensação de pertencer a um clubinho especial. Os escolhidos. Eu, pessoalmente, estou farto das mil e uma maneiras que a “Western Civilization” tem criado e recriado para segregar as pessoas em vez de uni-las.
O fenômeno d’O Teatro Mágico é, para mim, sintoma de um grande mal de nossa sociedade: a falta de acesso à cultura de qualidade. Como esse acesso não é possível e os meios de comunicação estão abarrotados de uma música que desafia o conceito de música propriamente dita, qualquer coisa que saia o mínimo possível da normalidade emburrecente é automaticamente posta em um altar e adorada como arauto do porvir de uma cultura mais elevada. O único mérito dO Teatro Mágico é ser melhor do que o que toca na maioria da mídia, o que não é difícil.
Vejam na prática: http://www.oteatromagico.mus.br/novo/blogs/view/213
Habacuc e o cachorro
O problema da vanguarda vai um pouco além, eu acredito. A vanguarda é e sempre vai ser importantíssima. O problema é que os artistas, depois do século XX, de Citizen Kane e da indústria cultural perdeu, creio eu, o elo com o passado. Onde está a arte? O que é arte, hoje em dia, aliás? Este pseudo-artista é produto de uma sociedade confusa, que consome “produtos” achando que é “arte” e que se busca e não se encontra. Para ilustrar a importância da vanguarda basta pensar em: Bach, Mozart, Beethoven, Van Gogh, Kandinsky, Picasso, Dali, Shakespeare, Göthe. Qualquer lista aleatória de grandes artistas de nossa história vem mostrar sua importância e isso é incontestável. Mas o que destruiu a vanguarda? O que é que se deu para que tenhamos chegado ao ponto de não termos, praticamente, ou pelo menos não chegar quase ao nosso conhecimento, mesmo em tempos de internet, onde a informação atravessa o mundo em questão de milissegundos, arte avant-garde verdade?
Se olharmos para trás, e aqui falo com extrema presunção, veremos que há um fio condutor na história da arte. As quebras de paradigmas, a criação de novas linguagens e ruptura com o passado sempre vêm, obviamente, atreladas a um profundo conhecimento de toda a Tradição (sim, com T maiúsculo) por aqueles que subvertem as regras vigentes. Exemplos disso não faltam em toda a história. Depois de um século XX que assistiu a duas guerras mundiais, guerra-fria e diversas guerras locais em nome do famigerado equilíbrio de poder, que assistiu a rápida escalada do quarto-poder, que assistiu a dominação geral da economia de mercado como paradigma atual e tido como doutrina a ser seguida cegamente e em decorrência disso, assistiu, também, a igual dominação da Indústria Cultural como dissipadora de produtos que costumam se confudir às vezes com arte mas na maioria das vezes com lixo, temos um novo cenário, inédito em nossa história. Tudo isso criou em nós comportamentos bastante distintos: o homem moderno (pós-moderno?!) e sua relação com a arte de seu tempo (e por que não?! com a arte de toda a história) difere radicalmente do homem de todas as outras épocas. O homem desde a Renascença sempre consumiu a vanguarda artística pois aquela era a única que falava exatamente na linguagem que ele podia compreender.
E o que ocorreu? Rádio, TV, Jornais, Gravadoras e Cinema.
Há um fenômeno no homem do século XX que Nikolaus Harnoncourt nos chama a atenção em seu livro “O Discurso dos Sons”. O homem moderno perdeu o vínculo com a arte do seu tempo. O consumo de arte agora se resume a ouvir trechos de músicas. Sabe aquele pedaço da música que você sente os pelos arrepiarem? Os olhos das poucas pessoas de nosso tempo que ainda se interessam por arte se voltaram aos séculos passados e somente com a finalidade passatempesca de repetir os pontos culminantes das obras, pelo menos na música — a arte de maior vulto. Como causa deste fenômeno acredito que tenhamos dois pontos: a ultra-radicalização da música erudita do século XX com a Segunda Escola de Viena (Berg, Webern e Schönberg) e companhia limitada posteriormente (Pierre Boulez, serialismo integral) e o florescimento do cinema e das trilhas sonoras orquestrais com arranjos de fácil consumo (por utilizar uma linguagem musical já estabelecida e até já datada). Creio que o homem tenha perdido o contato com a vanguarda justamente nesse lapso de tempo, do entreguerras até meados dos anos 60, correndo paralelo ao florescimento da música pop aliada à mídia (rock inglês, por exemplo).
Com tanta degeneração da arte chegamos ao extremo de um pseudo-artista acorrentar um cachorro e deixá-lo morrer de fome invocando estar fazendo arte. Não está! E por que ainda dão atenção a esses pseudo-artistas? E onde estão os artistas de verdade?! Vivemos numa sociedade que possui pouquíssima cultura. Esse é o problema. Vivemos numa era de pessoas que não conhecem a Literatura nem a Música, tampouco a Pintura. Não conhecem, acredito, pelos motivos expostos acima, o elo foi perdido. Desta maneira como esperar que consigam distinguir a arte da não-arte? Antes que isso possa aconter o homem precisa recuperar seu vínculo com a Arte. Sem ele vamos ter cada vez mais farsas se passando por artistas.
Sobre Títulos e Pensar por Si
E, em tempos de profunda crise e falta de empregos, está aberta a temporada de caça aos títulos. Corra já atrás do seu antes que acabe! Os estudantes agora não tendo mais onde trabalhar vão simplesmente ficando na universidade por falta de opção e acabam, naturalmente, conseguindo os tais títulos. Tornam-se Mestres e depois, naturalmente, Doutores até que finalmente saem do país! Mas que maravilha, “foi estudar na Zoropa”! É praticamente ascender aos céus. Ascender aos céus, mesmo. Literalmente! Porque quando voltam alguns se comportam como se fossem verdadeiros deuses.
A ostentação do título é normal e acredito que já tenha sido verificada amplamente por qualquer pessoa. Há doutores que fazem questão de serem chamados por Doutor. Não que haja algo errado nisso mas o tipo de reflexão que quero provocar é tal: e o que há realmente por trás de um título? Será que o título significa realmente tudo que normalmente é considerado?
Semana passada estive presente, quase por um acaso, em uma reunião de acadêmicos. Havia um evento cultural e compareci por interesse em assistir a apresentação. Fiquei surpreso com a incrível demonstração de “ostentação titular” que ocorreu. Uma apresentadora, antes do evento começar, explicou que aquele acontecimento era em comemoração a um outro evento da entidade e que iria apresentar a todos os membros de seu corpo. Ao fazê-lo, exigia que o referido membro se levantasse enquanto seu currículo era lido em voz alta. Os olhos de cada um dos ali presentes brilhavam! Mestrado não sei onde, Doutorado na casa da mãe-de-pantanha, Pós-Doutorado na casa-de-chapéu. Um homem do meu lado quase que chorava de emoção.
Após a apresentação de todos os membros deu-se início a apresentação que tanto esperava. Quinze minutos depois de ter iniciado eu já não conseguia ficar lá. Tinha que ir embora. Meu tempo estava sendo desperdiçado tamanha era a falta de qualidade. Comecei a ficar inquieto e o foco de atenção se desviou do palco à platéia. Qual foi minha surpresa! Os doutores, supostas pessoas de cultura, cujo conhecimento repousa intocável dentro de suas cabeças, estavam todos “embevecidos” com a apresentação. Não obstante o nível artístico fosse baixíssimo, nenhum dos ali presentes parecia se incomodar. Muito pelo contrário. As expressões marcadas em seus rostos eram de admiração e deslumbramento.
Como se confunde cultura com escolaridade, não?! Escolaridade não implica cultura. Ver todos aqueles doutores fazendo cara de admiração ao assistir a uma performance artística de tão baixo nível me fez ter mais certeza ainda desta tese. Foi uma pequena amostra.
O que significa ser Doutor? Significa possuir mais cultura ou conhecimento? Acredito que não. Só significa que alguém passou mais tempo dentro da sala de aula lendo o que os outros escreveram e escrevendo o que os outros querem que ela escreva. Não mais, não menos. Schopenhauer disse, em seu texto “Do pensar por si” (A Arte da Literatura, capítulo 5),
Ora, não parece aqui que a maioria trabalha justamente desta forma no nosso ensino superior?
Schopenhauer vai além.
O que Schopenhauer diz parece se encaixar perfeitamente neste caso (o de portadores de títulos que não possuem cultura “à altura” – se é que isso existe – dos títulos que carregam). Seu conhecimento profundo acerca de um mesmo tema parece não se conectar a toda a teia de conhecimentos que a Humanidade já construiu. Parece algo artificial. São, na verdade, ultra-especialistas. Gosto de dizer que são “especialistas em girar porcas XT-R45-F/2 12 graus para a direita”. Se questionados para que girem para a esquerda não saberão fazê-lo.
O que venho dizer é que cultura não depende de título. Isso não significa que não haja doutores e mestres com extrema cultura e um conhecimento realmente natural, como o conceito de Schopenhauer. Mas, como em todas as camadas sociais e culturais, trata-se da extrema minoria. E esses, tenho certeza, não enchem o peito para que os chamem de ‘Doutor’.
Não nos deslumbremos somente porque alguém possui um título. O título só significa que o cidadão em questão é um homem do conhecimento. Não um homem que pensa por si, conhece a cultura de onde veio, suas raízes, outras culturas e, assim, faça conexões entre a multiplicidade de visões de mundo. Este último é raro e não depende da escolaridade. Há desde gente simples do povo, que mal sabe ler e até mesmo doutores (que resistiram à ‘des-elastilização’ da mente, citada por Schopenhauer) que possuem o poder de pensar por si e de conectar o que sabem verdadeiramente com tudo que os cerca. A capacidade de conectar o que se sabe é mais importante. Pensar por si. Pensem por si!
“O que o homem herda só o pode chamar de seu quando o utiliza.” Goethe


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