Bastardos Inglórios

Confesso que fui assistir Bastardos Inglórios com uma grande dose de desconfiança por um lado e de excitação por outro. A violência, às vezes com uma não-tão-estranha gratuidade, sempre me afastou da estética Tarantiniana. Se há uma coisa que valorizo acima de tudo na arte é a congruência de seus elementos. Explico: acredito que o todo congruente de uma obra se dá a partir do momento em que as partes se relacionam, entre si, de forma necessária. Se um elemento sequer for removido, a obra perde o sentido. Em Bastados Inglórios, senti, pela primeira vez, como nunca em Tarantino, não apenas a força da violência, mas sua necessidade, ao se relacionar com o resto da obra. Não há violência gratuita. A violência é uma espécie de elemental invocado a partir do sofrimento humano causado pelos nazistas.

Brad Pitt encarnando o sulista de sotaque forte 'Aldo Raine'

Brad Pitt encarnando o sulista de sotaque tão forte quanto sua brutalidade, 'Aldo Raine'

Ela vai sendo dissipada durante todo o filme e a sensação que me tomou foi mudando. Logo em um primeiro momento, quando dos primeiros minutos do filme – os primeiros minutos do primeiro ‘capítulo’ (sim, o filme é dividido em capítulos), o nível de tensão é ajustado em um nível bastante alto. Se fosse comparar com um ruído, seria suficiente para estourar os tímpanos de qualquer cidadão. Nesta primeira cena, um camponês avista uma viatura da SS e ordena que sua família entre em casa. Um oficial alemão, Hans Landa (Christoph Waltz), busca judeus que possam estar se refugiando na França e vai até a residência de Perrier LaPadite. A longa conversa, a lentidão das palavras do oficial alemão, a formalidade. Tarantino demora, sabiamente, até nos mostrar que realmente aquele homem refugiava judeus. Tomadas no rosto do Monsieur LaPadite e do oficial Landa evidenciam um contraste: o sofrer e a ansiedade de um homem de carne e osso versus a calma e o sadismo de um psicopata. O diálogo quase-silencioso entre LaPadite e o oficial Landa é genial. A tensão aumenta ainda mais, pouco a pouco, com o desenrolar da cena. LaPadite, para proteger sua família, é levado a entregar os refugiados e o velho “estilo Tarantino” é reconhecido quando os soldados que acompanhavam o oficial atiram um número desmedido de balas através do chão, onde a família judia estava escondida. Os tiros contrastam com o quase silêncio do diálogo anterior. A força da cena e a veracidade demonstrada pela atuação de Waltz fazem com que toda a violência vista a partir dali seja desejada pelo público.

Christoph Waltz

Christoph Waltz como Hans Landa, o vilão mais tenso de todos os tempos

A ferramenta que o diretor usa para nos levar a verdadeiras ’sensações orgásticas de vingança’ é o pelotão dos ‘Inglourious Basterds’, liderado pelo Tenente Aldo Raine (Brad Pitt). O grupo executa toda sorte de crueldades contra os nazistas. Eles são a mão que Tarantino usa para, acima de tudo, e isto considero fato essencial para a compreensão completa do filme, fazer o público questionar sua própria moral. Para mim, foi impossível não me remeter à cena final de Dogville (onde nos questionamos porque nos sentimos tão bem com tamanha chacina), embora não seja tão explícito. Mas, de maneira semelhante, somos levados a nos questionar quanto a nossos valores: este ato de matar e torturar é repreensível e desumano, e mesmo assim sentimos um prazer imenso ao ver a brutalidade. Estamos sendo vingados. Somos levados um pouco mais próximo do Humano, mesmo que seja vergonhoso. Nietzsche questionou “quanto de verdade você pode suportar?”. Tarantino aperta em um botão dentro de nós. E é este o eixo. Ao reescrever a História, Tarantino pinta um quadro violento onde ao mesmo tempo sentimos prazer e nos questionamos quanto à ética desta fruição. Não posso falar mais pra não tornar isso num grande spoiler.

3 comments 23/10/2009

Motores de Busca, volume 1

É incrível ver de onde as pessoas chegaram ao seu blog. Food for thought.

filosofias iradas

Queria entender do que se trata uma filosofia irada. Tá buscando informações sobre o movimento Hippie?

imagens aterrorizadoras de vulcões a explodir

Sinceramente: QUAL O SENTIDO DESTA BUSCA CAIR NO MEU BLOG? Especialmente depois de “aterrorizadoras”. Vou até buscar se eu escrevi isso em algum lugar!

and i love her no assobio

O cara quer ouvir a música no ‘assobio’ no youtube? Por que ele mesmo não asso’b'ia a música?

texto do estudo da mente de uilame

Essa é novidade pra mim! Alguém sabe dizer se há mesmo um texto de Uílame sobre estudo da mente? Esse eu faço questão de ler!

Add comment 23/10/2009

Quartetos

Borodin, Quarteto No.2, 3o mov.

Mozart, Quarteto “Dissonante”, 1o mov. (lembrar que se trata de uma obra do século XVIII, percebam a dissonância!)

Beethoven, Grosse Fugue

Bartók, Quarteto No.5, 1o mov.

Schoenberg, Quarteto No.4, 1o mov.

Webern, Quarteto Op.28

Add comment 09/10/2009

Barenboim/Celibidache, Brahms 2, Piano






Add comment 01/07/2009

Steven Pinker fala sobre linguagem e pensamento

O TED.com é um site que abriga palestras de mentes brilhantes de todas as partes do mundo. Como a maior parte do conteúdo está em língua inglesa, surgiu um projeto voluntário de tradução de seu conteúdo. Comecei a contribuir traduzindo a palestra de Pinker disponível abaixo, que fala sobre como a linguagem pode ser tanto um reflexo do que somos como uma janela que explique como funcionamos. A solidariedade digital é um fenômeno interessante e tende a beneficiar além dos outros, ao próprio voluntário, no longo prazo, onde todos terão acesso a várias palestras traduzidas para várias línguas. Até o momento, o projeto conta com uma “equipe” de tradutores voluntários de mais de 200 membros. O endereço é o www.ted.com.

Add comment 17/06/2009

Dan Dennett, filósofo da mente, fala sobre a consciência

Dan Dennett é filósofo da mente e cientista. Dentre os dois grandes grupos que existem quanto ao problema da mente e da consciência (dualistas e monistas), ele pertence ao segundo. Defende a visão materialista de que a consciência emerge de um cérebro construído através do processo evolutivo darwiniano. Esta maneira de pensar entra em choque direto com a visão dualista, que prega uma divisão entre a consciência e o corpo. Como contraponto a Dennett, pode-se citar um grande defensor do dualismo, o também filósofo da mente, John Searle. Em breve irei postar vídeos de Searle, a fim de equilibrar os pontos de vista.

No vídeo abaixo, Dennett mostra experiências que desafiam nossa consciência.

Add comment 10/06/2009

Respeito, por favor

Respeito?!

Add comment 06/06/2009

Boris Berezovsky, virtuose

Há alguns meses, esbarrei em vídeos dos Estudos de Execução Transcedental de Liszt. O pianista chamava a atenção pela clareza, precisão e agilidade com que tocava. Tratava-se de Bóris Berezovsky. O vídeo que vi faz parte de um DVD onde ele toca o ciclo dos Estudos, ininterruptos, ao vivo. Berezovsky sua em bicas e não é para menos, visto o esforço necessário para a execução do que se considerar o que há de mais difícil tecnicamente em termos de execução pianística. Não haja relação direta entre dificuldade e qualidade. Claro que não. Mas há algo de escopofílico em assistir a um virtuose executando obras dificílimas. O vídeo, na ocasião, foi o de número 8, Wilde Stagd,

e a marcação de andamento na partitura diz Presto furioso e pode ter certeza de que é isso que Berezovsky entrega aos ouvintes.

Há inúmeras outras gravações de Berezovsky dignas de nota. Suas gravações dos estudos de Chopin juntamente com os arranjos Godowsky estão também disponíveis no youtube, para a nossa felicidade. Ver o arranjo de Godowsky do Estudo Revolucionário (Opus 10, número 12) é de assombrar qualquer um:

Destaco primeiramente Estudos por serem de caráter mais técnico e permitirem a rápida observação do virtuosismo de Berezovsky, mas isso não significa que não haja lirismo como contraponto de uma técnica monstruosa. Pelo contrário. Há um arranjo do próprio pianista para a famosa peça orquestral de Modest Mussorgsky (Uma noite no Monte Calvário) que é simplesmente assombrosa. A tarefa de reduzir do excesso de recursos que uma orquestra possui para as limitações timbrísticas e físicas (afinal, são apenas 10 dedos e há um limite de distância entre eles, obviamente) de um piano é das mais difíceis e o resultado que ele consegue é, incrível.

Por final deixo a gravação mais lírica que encontrei no youtube. Berezovsky toca o Rach 2 (aqui apenas o segundo movimento, mas há tudo por lá, busquem!).

Add comment 05/06/2009

Canal Youtube da Filarmônica de Berlim e Dudamel sobre #5 de Prokofiev

Descobri recentemente o canal oficial da Filarmônica de Berlim. Vários vídeos da temporada de 2008-2009 estão disponíveis e, entre eles, um bate-papo entre um contrabaixista (Edicson Ruiz) e Gustavo Dudamel  sobre a Quinta de Prokofiev.

O endereço do canal da Filarmônica é o http://www.youtube.com/user/BerlinPhil

Add comment 11/05/2009

Citação obrigatória: Definição de ‘Homem’, de Ambroise Bierce

Lendo o excelente livro do psicólogo Steven Pinker, ‘Como a mente funciona’ (Na Amazon, Na Livraria Cultura), me deparo com uma citação do Devil’s dictionary (Dicionário do Diabo), de Ambroise Bierce. Lá há a definição mais fantástica para o verbete ‘Homem’ que já vi até hoje. Um pouco de licença poética me permite alterar em 1 (uma) palavra a definição, para fins de melhor caracterização ao contexto brasileiro.

Homem, S.m. Animal tão absorto na contemplação extasiada do que ele julga ser que se descuida do que indubitavelmente deveria ser. Sua principal ocupação é o extermínio de outros animais e de sua própria espécie, a qual, entretanto, multiplica-se com rapidez tão insistente que infesta todas as áreas do planeta e a [Argentina].

Add comment 08/05/2009

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